Minha primeira experiência com Metal Gear foi em um daqueles CDs demo, recebidos junto com o vídeo game na compra. Nunca joguei o primeiro jogo da série. Aquele onde enfrentamos o Big Boss no final. Comecei com o Metal Gear Solid. Aliás, essa coisa de enviar um CD com várias demos era uma bela sacada. Foi dali que saíram vários jogos que me acompanharam por anos no PSX. Um deles foi o MGS.

A demo não era muito longa. Começava com o Snake chegando ao heliporto de Shadow Moses. Tinha alguma coisa antes, se não me engano. Mas era naquele heliporto que passava a maior parte do tempo. Lembro das primeiras tentativas frustradas de driblar os guardas, câmeras e entrar no tal duto de ventilação. Isso tudo entre centenas de chamadas do codec, onde Otacon, Mei Ling ou o Coronel Campbell se alternavam fazendo seus respectivos discursos. Naquela época, Otacon ainda parecia um nerd morando no porão da casa dos pais; Mei Ling era uma japinha bonitinha e o Coronel… Bem, era um Coronel.

A cada nova jogada, ia passando a pegar melhor o jeito daquele jogo complicado. Era botão fazendo coisa demais e coisa demais pra fazer. Mas acabei dominando o sistema e se tornou simples selecionar a arma, fumar um cigarro e desmaiar os guardas escondido das câmeras. Com o tempo até passei a estipular regras me forçando a inventar novos jeitos de alcançar a tubulação.

Um dia, finalmente achei o jogo e o comprei. Metal Gear Solid. Vi a morte de Sniper Wolf emocionado com o fim daquela bela matadora. Assisti Gray Fox decepar a mão de Revolver Ocelot. E, claro, a batalha final com Liquid no topo do Metal Gear Rex – o modelo de Gear mais legal de todos – Deve ter sido mais ou menos nessa época que passei a realmente me interessar pela história dos jogos. Procurando em revistas – é, revistas… ou alguém acha que naquela época existiam Wikis de jogos? Rá! – mais sobre os detalhes de cada trama. Mal sabia eu que aquela bela trama era apenas um pequeno fiapo solto naquela colcha de retalhos titânica da história de Metal Gear. Foram bons tempos bancando o espião canastrão caçador de robôs gigantes.

Após alguns anos e a virada de uma geração, chegou a notícia do Metal Gear Solid 2. Rever os personagens em gráficos melhores, com novas possibilidades e notar o quanto cada um deles havia mudado e amadurecido. Aquele prólogo no navio começava a concretizar as promessas e expectativas do jogo. Já a primeira cutscene do jogo – uma demonstração das longas cenas por vir – me deixou sentado na ponta da poltrona contando o tempo pra assumir o controle de Snake e colocar mais guardinhas pra dormir. Então, passou o prólogo e fui deixado com uma Xuxa transformista pra acabar correndo pelado nos corredores frios do Arsenal Gear. Ainda assim um bom jogo. Mesmo quando começamos a falar de La-le-lu-lei-lo e figuras conspiratórias mortas há 40 anos ainda puxando as rédeas do mundo. Mais mostras do que ainda estava por vir. Um pouco confuso. Mas nada impossível de se entender. Só era preciso um pouco de paciência, bastante atenção e uma memória boa o suficiente pra lembrar as dezenas de diálogos. Ou seja… Internet.

Kojima, então, nos traz Metal Gear 3, um dos melhores da série, competindo acirradamente com o 4. Agora, nada de Solid Snake. Estamos no controle de Naked Snake – sério, quem decide os codinomes nessa série? – Um agente ainda não tão experiente assim, sob o comando da The Boss – Melhor personagem da série –, destinado a se tornar o lendário Big Boss e fundar Outer Heaven, o paraíso militar. Confesso que esperava mais de alguns aspectos do jogo, como o sistema de sobrevivência: caçar animais pra comer, tratar dos próprios ferimentos… Promessas de um jogo incrivelmente épico. Com uma realização nem tanto. Mas ainda assim, um ótimo jogo. Nunca uma espiã tripla foi tão sedutora – e o jogo colecionava espiões triplos – Batalhar com o bisavô do Rex. Enfrentar um vilão russo no melhor estilo comedor de criancinhas. Às vezes, até conseguia imaginar Volgin e Zangief treinando juntos, espancando ursos nas montanhas congeladas.

Fechando toda a zona, Metal gear Solid 4 volta a nos deixar no controle de Solid – agora old – Snake. Numa trama ainda maior, trazendo de volta praticamente todos os personagens da série. Ocelot possuído pelo braço de Liquid – nem tente ponderar, apenas suspenda sua descrença e curta o jogo. É melhor assim – à frente de um exército mercenário lucrando com todas as guerras em andamento ao redor do mundo. A última missão. Com direito a lutas de robôs gigantes, embates contra imortais e, finalmente, o tão esperado acerto de contas, realizado da melhor forma possível ao estilo Street Fighter. A cada capítulo o jogo parece crescer de forma absurda. E se você jogou toda a série, os últimos capítulos são uma ode a nostalgia dos fãs. Shadow Moses. Rex. Rever o cenário onde deixamos o corpo de Sniper Wolf após o tiro de misericórdia sob a melodia dos lobos uivantes, a libertando de uma vida em meio ao caos e sofrimento das guerras. Lindo.

Não vou negar, a história tem um avanço em complexidade facilmente considerada bem acima do esperado. Mas poucos podem afirmar ter criado uma obra tão bem feita quanto Kojima fez com Metal Gear. Se você nunca jogou, jogue. Baixe o primeiro jogo na PSN. Corra atrás do segundo e do terceiro. Ainda não joguei o Peace Walker, mas pretendo. Talvez o lançamento dele pra PS3 possibilite isso. Além disso, o Rising vem aí. E parece que vai ser bom.

Vez ou outra ainda brota algum boato de um MGS novo. Não tenho pressa, nem acho necessário. Deixe o velho espião descansar. Ele merece.

Pedro Woyames

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

26 Comentario(s)

  • Squallnathan 5 anos atrs

    Texto excelente.
    Nunca entendi o porquê das pessoas criticarem tanto o controle de Metal Gear, de repente é porque me acostumei com os controles há muito tempo, vai saber…
    Meu primeiro contato com MG também foi com MGS, no PS1. Eu fui visitar meu primo (ou terá sido o videogame dele?) e lá estava ele jogando o começo do jogo. Tinha acabado de terminar a parte do hangar, subindo no elevador, Snake se abaixou pra tirar o aparelho de mergulho e se levantaou com o título Metal Gear Solid ao fundo. :'D

    Desde aquele dia, comprei todos os jogos que saíram pras plataformas que eu tive (PS1, GC, GBC, PSP e PS3), mas ainda não tive a oportunidade de jogar os de PS2. Aguardo ansiosamente pelo relançamento do 2 e 3 em HD.

    • pedrowoyames 5 anos atrs

      Haha, Vlw :D

      É tudo questão de prática. Se vc não dá chance pro jogo, não tem como gostar. O controle pode parecer confuso no início pela falta de hábito de lidar com as variadas funções, mas depois de um tempo pelo menos eu não me atrapalhava mais =D

      Como joguei o 2 e o 3, to no aguardo mesmo é do Peace Walker!

      • Squallnathan 5 anos atrs

        Admito que quando comecei a jogar o 4, eu morri muitas vezes porque não estava acostumado com a câmera, mas depois de um tempo me acostumei.

        Peace Walker é excelente! Na minha opinião um dos melhores do PSP e de longe o mais bonito e bem feito, mas a falta do segundo analógico atrapalha bastante (o que com certeza será corrigido na coletânea em HD).

  • Diego Snake 5 anos atrs

    Metal Gear Solid é de longe, a minha série mais amada e querida de todas. Não por um acaso, meus avatares sempre são dos personagens da série.

    MGS tambem provocou em mim, a sensação de que, finalmente, os games podem rivalizar com os filmes. Não apenas os de ação e sci-fi, mas os mais damáticos.

    Coisa que eu jamais entendi, são as pessoas depreciando o jogo, mesmo sem ter jogado, por causa das cut-cines, da jogabilidade, do uniforme de Solid Snake "na bunda" – quem jogou, sabe que esse uniforme NÃO é para isso – e, principalmente, quando dizem que o Mr. Kojima é pretencioso. Porra, é o trabalho da vida dele, ele tem mais que tentar ser perfeito.

    E digo mais, para quem diz que "Splinter Cell" é a versão "boa" de MGS, reveja seus conceitos, pois SC é um jogo genérico, você já jogou vários como ele por ai. MGS é único. Ou quem sabe, você tenha somente o costume de matar tudo e todos nos jogos, sem nem ao menos entender o motivo que você esteja fazendo isso.

    MGS não é um jogo para "rambos" de FPS, mas sim, de quem quer ter uma experiencia "gamística", em que a inteligencia, furtividade, senso crítico e o "cliffhanger", fazer toda a diferença!

    • pensei q fosse por acaso huahuahu
      eu concordo q MGS é unico, todo mundo deveria jogar, mesmo q seja para ter argumentos para critica-lo
      o jogo nao é a 7 maravilha do mundo, mas trouxe diversas tendencias aos games como falamos no nosso top 10 de jogos lançados em 1998 e merece seu devido respeito

      • Diego Snake 5 anos atrs

        Como disse o cineasta Paul Thomas Anderson – que é fã declarado da série – "MGS não se joga, se vive!"
        Acho que como fã, ele soube definir muito bem! hehehe

        Ah, esqueci de dar o feedback para a crônica do Pedro, que foi excelente!

        • pedrowoyames 5 anos atrs

          Vlw pelo elogio. Vou tentar manter a qualidade =D

        • Poisony 5 anos atrs

          Olha só, não sabia que o Paul Thomas Anderson (There Will Be Blood, Magnolia e Boogie Nights, pra quem não tá ligado) era fã de Metal Gear Solid. Muito interessante. Já imaginava que pessoal cinéfilo ou que trabalha com cinema de alguma forma tende a gostar mais de MGS, mas não esperava um diretor famosão aí afirmando isso.

          • Diego Snake 5 anos atrs

            Sim, eu me surpreendi ao ler nessa entrevista, a alguns anos, ele dizendo que é fã da serie. Isso foi mais ou menos, quando ele foi cotado para dirigir uma adaptação de MGS, no início da decada passada. Mas o projeto não vingou. Com sou fã do trabalho dele e de MGS, fiquei bem orgulhoso.

            E se um dia houver uma adaptação, tem que ser um diretor do nível dele, como Christopher Nolan, Darren Aronofsky e David Fincher. Se colocar um Michael Bay, ferrou tudo!

          • pedrowoyames 5 anos atrs

            Aronofsky dirigindo Metal Gear… Taí algo que eu queria ver.
            Se no Batman o roteiro dele tinha direito ao homem morcego dando facada no olho do bandido, imagina oq ia rolar com MGS!!

    • pedrowoyames 5 anos atrs

      Opa! Hahaha não tinha tido tempo de ver que minha crônica tá no site xD

      Realmente MGS é um daqueles jogos que redefinem os jogos. Criticar a fácil, fazer igual é dificil e superar mais ainda. Todo jogo tem seus méritos e deméritos. O difícil é encontrar um com tantos méritos quanto MGS.

      Splinter Cell é legal de jogar, mas não te envolve nem metade do que Metal gear envolve. =)

  • Poisony 5 anos atrs

    Admito que nunca me animei pra jogar qualquer Metal Gear Solid até o final. Do que eu joguei (os dois primeiros de PSOne), minha opinião é a seguinte: às vezes acho que a parte cinematográfica dele (que é inovadora e merece créditos por isso) quebra foda a experiência de JOGABILIDADE (cutscenes longas causam isso. Não ligo de ser longa, ligo de ser mal-distribuída e de desviar o interesse do jogo) e em outras vezes é a jogabilidade que te tira da imersão da parte CINEMATOGRÁFICA dele.

    A história sempre me pareceu muito boa, no entanto. Entendo o pessoal que gosta e defende o jogo por isso, mas também entendo o pessoal que foi jogar pela história e não conseguiu atravessar o jogo que tem no caminho.

    • pedrowoyames 5 anos atrs

      Pois é, cara, esse é o lado negativo de tentar trabalhar muito duas coisas. Encontrar um equilibrio perfeito entre os dois sempre fica complicado. Termina ficando cada hora mais puxado pra um dos pontos.

      • Diego Snake 5 anos atrs

        Eu consegui dominar bem e saber lidar com esse ponto negativo, que sim, as vezes encomoda. Um dos problemas é que, a cada jogo, os comandos mudam bastante. E por conta disso, dominar a jogabilidade necessita de paciencia. Porém, quando dominada, ai você nunca mais esqueçe e pode escolher qual estilo fica melhor para você.

  • I *little heart* Metal Gear

  • Vagner "Zero" 5 anos atrs

    Ano que vem fazem 25 anos do primeiro Metal Gear, o de MSX e Kojimão prometeu algo pra comemorar. Como você disse que ainda não jogou os dois primeiros, jogue e creio que não irá se arrepender.

  • Daniel Avelan 5 anos atrs

    Cara,você não gosta de mim ou só se esqueceu de dar um alerta pra spoiler?

    • pedrowoyames 5 anos atrs

      Eita =X
      Bom, cara, é um texto sobre a saga inteira. Logo, haverão spoilers…. hehe

  • Marcio 5 anos atrs

    Mto bom o texto.

    Realmente me lembro de vários DEMOS….me lembro até do DUKE NUKEM….rapa era pra PC, mas eu jogava aquela sempre! rsrsrsrsrsrs Já sabia todos os lugares tudo que eu podia fazer…..pena ter comprado o jogo. Enfim texto mto bom! Continue assim….textos com qualidades e com a visão que temos daqui de casa.

  • Diego saint 5 anos atrs

    ta ótimo o texto xD eu joguei todos os mgs menos o peace walker ,pretendo jogar um dia kk

    • Diego Snake 5 anos atrs

      E vai jogar o mais rápido que vc imagina. O Peace Wallker tá no pacote "MGS HD collection".

  • Leonardo Cruz 5 anos atrs

    Gostei do texto, o CD de demos do PS1 também foi minha porta de entrada para o mundo de Metal Gear, e desde então não parei de jogar essa série.

    Eu entendo todas as críticas que a série leva, eu sempre digo que Metal Gear não é pra todas as pessoas. Não interpretem isso como: "Quem joga Metal Gear é melhor do que quem não joga". Não é isso, é que a série simplesmente não é pra todo mundo, provavelmente por causa da alta quantidade de bizarrices que ela tem.

    E quanto aos boatos de um novo Metal Gear Solid…NÃO.

    • pedrowoyames 5 anos atrs

      Realmente.

      Acho que o Kojima podia deixar MGS quieto e, quem sabe, se focar de novo em Zone of the Enders :D

      • Poisony 5 anos atrs

        Ou um novo Boktai! 3DS tá aí, carente…

        Ninguém liga pra Boktai. A arma era carregada com energia solar FOR REALS. Isso é muito foda.

        • fechou, manda dois 3ds (mais dois jogos) q prometemos q faremos!
          olha ae, nosso primeiro patrocinador o/

          • Poisony 5 anos atrs

            Quando seu nome for Hideo Kojima, talvez!