Jogos mudaram minha vida. Sempre ignorei ou simplesmente neguei isso porque sempre fui ensinado que jogos eram apenas entretenimento ou perda de tempo. Na minha família, videogame sempre foi chamado de “joguinho“. Minha mãe chama Okami de “aquele joguinho do cachorro que faz buraco no quintal”. Mas quando passei a pensar por mim mesmo eu percebi que eu podia aprender muitas coisas nos jogos, coisas que vão além de melhorar o inglês ou aprimorar meu reflexo. Pensar por mim mesmo pra defender os jogos já foi o primeiro passo.

Um dos argumentos mais fortes que tenho pra isso é a idéia de Gamification que eu conheci foi do webshow chamado Extra Credits. Eles falam sobre Gamification como o potencial de se usar jogos e seus sistemas de recompensa para o ensino e para que a realização de tarefas cotidianas sejam mais recompensadoras e – por que não? – divertidas. Por que é, afinal, que a nossa resposta emocional à enfrentar uma horda de monstros em God of War é tão recompensadora, mas terminar de lavar uma pia de louças sujas não?

Mas o uso da gamificação, porém, pode ir muito além disso. Como mostrado no exemplo anterior, podemos usar os jogos como analogia para coisas da vida real. E essa é a palavra chave: analogia. Isso porque esse é um dos processos cognitivos mais básicos do ser humano. Por mais que nossa mente saiba trabalhar com conceitos abstratos, sempre temos mais facilidade de aprender ao ouvir conceitos e idéias transformados em metáforas e alegorias (e assim surgem as mitologias).

Afinal, algumas coisas percebemos mais facilmente em um “sistema” do que em outros, e as analogias nos servem para percebemos melhor as coisas menos óbvias no sistema que estamos trabalhando e aprendendo. Por isso em todo assunto mais complexo normalmente é muito recorrido o uso de analogias, como, por exemplo, a famosa analogia da bola que afunda a superfície do lençol pra exemplificar a idéia de forças gravitacionais distorcendo o espaço.

A mente humana é uma coisa um tanto etérea. Nesse sistema onde os pensamentos e sensações são tão abstratos, analogias se fazem necessárias para visualizarmos melhor as coisas estão acontecendo. Eu costumo usar a idéia de barra de estamina, que me ajuda a visualizar melhor meu nível de inspiração: quando ela zera entro num período de extrema frustração (e meus itens de cura e revitalização são músicas ou qualquer outra coisa que me inspire). Lutar contra as forças da frustração se tornou muito mais fácil quando consegui visualizar as coisas assim (e descobri que a relação entre motivação e frustração é equivalente, análoga à idéia de nível de defesa e dano). Aliás, gosto muito de usar também as idéias de pontos de experiência, de subir de nível, e até a idéia de upgrades e itens.

Por que afinal não podemos imaginar discussões como se fossem batalhas? Podemos usar técnicas de retórica contra falácias e outras falhas de construção de argumento. Novamente aqui, a analogia aos combates nos ajuda a visualizar melhor e mais efetivamente as lógicas que estão acontecendo de forma abstrata.

E tem mais a ser explorado quanto à questão de alegoria. Quando jogamos algum jogo onde um herói invade um castelo mal-assombrado, por trás dessa alegoria podem estar nos contando a história de uma pessoa enfrentando seus próprios medos (e talvez por isso sejam tão atraentes – chamo isso de Efeito Gusto). Não sei se é comum desenvolvedores de jogos pensarem assim, mas a luta contra um chefão pode muito bem ser construída como uma alegoria para um problema real. E a questão é que esse processo também pode ser reverso, ou seja, em vez de um conceito ou idéia virar uma alegoria, o contrário também pode ser feito. Um exemplo para ajudar a visualização: quando estou enfrentando um chefão, minha primeira ação sempre é procurar um lugar seguro, um lugar onde eu possa me proteger se a coisa ficar feia. E essa idéia de “zona segura” pode ser uma estratégia que pode otimizar minhas habilidades de resolução de problemas reais.

Talvez não seja mérito exclusivo dos jogos, quem quer aprender e se tornar uma pessoa melhor só precisa observar e analisar e refletir sobre qualquer coisa do mundo. Mas isso já é uma das coisas que aprendi com os próprios jogos! E eu realmente acredito que existem bastante idéias que são mais facilmente visíveis em jogos, justamente porque você pode analisar o comportamento das suas próprias ações em um ambiente que pode ser usado como analogia para o resto de suas ações no mundo real.

Infelizmente, essa idéia que estou falando aqui só não é difundida por um motivo muito bobo: má reputação. É muito nerd e/ou infantil ficar pensando nas coisas como nos “joguinhos”. É muito “coisa de viciado” quem diz que “está fazendo grinding pra passar no vestibular” (sendo que grinding tem o originalmente o sentido de se afundar em estudos). Mas os benefícios de se adotar essa mentalidade são incrivelmente recompensadores. As outras pessoas podem não reconhecer o valor disso, e você não vai poder usar isso pra pegar as menininhas. Mas nem que seja escondido, vale a pena usar isso para seu próprio desenvolvimento.

Jogos mudaram minha vida. Sempre fui ensinado que jogos eram apenas entretenimento ou perda de tempo, então sempre tive uma sensação de culpa que tive que carregar comigo, e foi difícil me livrar disso. Mas já dizia o James, do Extra Credits (sim, você deve ir assistir o material que eles produzem agora), que não devo nunca pensar no tempo jogando como anos perdidos, mas que posso e devo usar isso para meu benefício. Eu concordo violentamente quando ele diz que o mundo valoriza e recompensa quem usa mentalidade que desenvolvemos jogando. E essa idéia deve ser difundida. Não podemos deixar que nos façam sentir culpados por algo que nos pode trazer tantos benefícios.

Henrique Tavares

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4 Comentario(s)

  • Heitor Polidoro 5 anos atrs

    Bacana o texto e a idéia, nunca havia olhado por esse ângulo, bem interessante vale a pena pensar.

    ps: Essa frase ficou meio 'sem sentido': "…analogias se fazem necessárias para visualizarmos melhor as coisas estão acontecendo." Faltou um "que" ou sobrou um "estão" ("as coisas que estão acontecendo" ou "as coisas acontecendo", acho a 2a melhor)

  • Excelente texto e ponto de vista, eu sempre vejo os jogos ou entretenimento eletrônico como a mídia que domina todas as outras, não a nada que não se possa fazer em um jogo, ela só não esta melhor por que ainda existe muito dinossauro que enxerga os jogos como "brinquedos", mas isso com o tempo aos poucos vai mudando.

  • Bem legal ouvir falar sobre gamificação aqui no blog. É um tema que estudo muito e coincidemente estarei palestrando sobre ele num evento gratuito aqui no RJ no início de fevereiro; quem quiser aprender mais sobre o tema: http://www.facebook.com/conexoesdigitais #ficaadica ;D

    Abraços e traga mais artigos do gênero para o Fênix Down que a gente agradece!

  • Zacarias 5 anos atrs

    É engraçado isso.

    Tb sempre fui viciadasso em jogos e sempre me disseram que isso não ia dar em nada. Fiz minha faculdade baseado nesse "vício", meu trabalho de conclusão foi baseado nisso, aplico conceitos de gamificação na minha vida faz anos, ganhei grana trabalhando numa empresa de jogos e hoje em dia trabalho criando produtos para web onde meus conhecimentos de games são muito valorizados pela minha equipe.

    Ou seja, acho que valeu a pena sim "perder" muitas tardes na frente da Tv =)