Um dos temas mais em voga nos últimos tempos é o meio ambiente. Não estou falando desses teminhas que passam em um ou dois anos, meses ou segundos, como a Copa do Mundo, as eleições ou essas atrocidades à inteligência do espectador que esses bastardos de veículos de fofocas e de celebridades fazem e que mereciam ser julgados em tribunais internacionais de crimes contra a humanidade. Não, meio ambiente é um tema que já vem, sobretudo, da década de 80, com o fortalecimento de movimentos como o Greenpeace, a Sea Shepherd e por ai vai.

Agora me diga: quantos jogos com essa temática você já viu? Não estou falando de Farmville, fazendinha não é o mesmo que tratar de questões ambientais e não passa nem perto de citar coleta de carbono, espécies em extinção, aquecimento global e essas conversas que fazem a cabeça dos “minino” hoje em dia. Para ser sincero, existem (basta ver sites como o Games For Change que você encontrará um bom punhado), mas não é um tema mainstream nos jogos eletrônicos tal como é nas outras mídias.

Mas por que raios eles deviam falar disso? Não digo que deviam, pequeno buckaroo, mas a questão é a seguinte: pegue qualquer outro tema com mais de alguns anos de história e de grande repercussão – com a exceção das causas GLS, e eu vou explicar o porque logo mais – e veja como isso foi tratado nos games. Guerra Fria? Cara, Space Invaders e toda a penca de joguinhos de tiro daquela época de heróis solitários compostos de nove ou doze pixels e muita imaginação são lei. Terrorismo? Call of Duty, Counter-Strike e games de FPS e estratégia pós-2001 estão ai pra isso, até mesmo com bizarrices como a volta das pandemias de zumbis em larga escala que andavam meio esquecidas. O chamado Girl Empowerment? Pense nos games de hoje e você achará mais exemplos do que merecem ser citados de mulheres com pernas enormes e capazes de maravilhas indescritíveis… no combate, pô. No combate, só no combate…

Sabe porque tudo isso? Existe uma coisa que faz milagre chamada “inimigo”. Os melhores inimigos, por definição, são alvos claros e que, se não forem batidos, batem você e lhe causam grande prejuízo. Inimigos só existem para dois propósitos: atrapalhar e lhe motivar a continuar. Pense que chefões tiram mais vida e levam mais tempo para cair, geralmente, sendo portanto inimigos mais ferradões que aqueles bichinhos normais. Goombas são lentos e previsíveis, de modo que não são muito traumáticos para o Mario, e por ai vai. Um segredo: você já pensou porque os Estados Unidos da América se chama “Estados Unidos”? Cara, há Estados onde há pena de morte e em outros não – são quase países diferentes. Possuem muitas divergências entre si (vide as eleições lá), e divergências causam rupturas. Tirando sua economia, o que os une, desde seu surgimento, são inimigos externos maiores do que as diferenças internas entre cada um. Índios, escravocratas, piratas, nazistas, soviéticos, terroristas… e, em momentos de marasmo, a criatividade coletiva se encarrega de achar inimigos em alienígenas, vírus, nos mortos, em meteoros, na Illuminate… Essa é uma das razões normalmente dadas por cientistas políticos para a quantidade de guerras que os EUA travam (tal como Roma também travava) e para sua indústria bélica inchada e imprescindível para o crescimento da nação. Ou assim dizem as más línguas…

E, claro, há “inimigos” que não são oponentes vivos, mas sim o timer de um Time Attack ou uma meta de fazer 1,5 milhão de pontos em jogo X. São alvos a serem batidos e, ao mesmo tempo, são metas que lhe motivam a seguir jogando, pois costumam lhe recompensar quando atingidas. Sabe aquelas metas impossíveis que o seu chefe te dá para que você continue no emprego ou as provas que dão nas escolas para ver se você é um “bad enough dude” para ir para o próximo ano? Pois é, são inimigos!

Jogos de estratégia, de corrida, de ação, simuladores… todos tem inimigos, porque todos tem metas e punições caso você não as cumpra. RPGs costumam desenvolver histórias onde você acaba conhecendo bem seus inimigos tremendões. E não, as questões de meio ambiente que aparecem neles costumam se resumir a “OMG!!!!11!!1, tem um cara chupando o cérebro do planeta com um canudinho! Salve o mundo e o ecossistema da estiagem de mana/ether/lifestream/fonte de vida master blaster batendo naquele cara com cara de mal ali!”.

O problema de tratar de meio ambiente em games – e talvez a razão para a falta de jogos do tema – não é que o ele é “muito sério, que quem joga jogos só está de brinks” porque games como Heavy Rain e Nier Gestalt tratam de questões que transcendem o mero “a gente quer se divertir! Festa estranha com gente esquisita, eu não to legal. Não agüento mais birita”. O problema é outro: que inimigo você vê no tema “estamos f****** com o mundo!”? Eu deixo você pensar, relaxa.

Já pensou? Pois é, temos duas respostas (talvez tenhamos até mais que duas…):

1) Não há inimigo claro. Dizer que o inimigo é a “sociedade” não é o mesmo que dizer que o inimigo é a Máfia, a URSS, o Hezbollah, o Osama Bin Laden, etc. Terroristas podem se esconder em Marte e governos podem ser difíceis de abater, mas são alvos físicos – mate-os ou destrua-os e já era. Mas e “a sociedade”? É o que vemos sendo resolvido em jogos de apocalipse zumbi, mas convenhamos: eles não fazem isso porque querem uma saída para o aquecimento global. Fazem isso porque esmagar cabeças de zumbis virou esporte no Ocidente.

2) O inimigo “somos nozes”. E aqui vai uma das normas mais importantes sobre inimigos: o inimigo pode estar entre nós, pode estar nos controlando e pode ser até mesmo um vírus dentro de nós, mas NÃO pode ser nós mesmos. Isso é um conceito de Storytelling: o lado que conta a história pode ser o vilão, mas só de protagonizá-la você coloca os “bonzinhos” que querem te impedir como inimigos. Inimigos não precisam ser maus, precisam apenas fazer frente a nós. Na bem da verdade, o cérebro humano não é programado para lutar “contra o mau”, é programado para lutar contra obstáculos, mesmo que esses sejam anjos ou Deus (como visto em Shin Megami Tensei: Persona. Um baita jogão, por sinal). Esta é a mesma razão pela qual, na minha opinião, não se vê quase jogos que tratem especificamente da questão GLS – eu disse que voltava nela, não? Não é nem uma questão de “que público-alvo vai comprar este jogo?”. Você vai falar de preconceito? Como? Que inimigo você vai apontar e que solução o jogador pode tomar para vencê-lo?

Ou seja: para fazer jogos que realmente tratem da questão de meio ambiente, ou se foca em um dos muitos problemas englobados nesse tema e se encontra uma maneira crível de se resolver um problema – elegendo navios baleeiros como inimigos e criando um Skies of Arcadia entre naus no alto mar, por exemplo, o que poderia ser um incentivo ao ecoterrorismo –, ou se faz algo que há muito tempo não se vê no mundo dos games, que é produzir um jogo sem solução como Space Invaders, onde ganha que lutar por mais tempo e obter mais pontos antes de morrer. A menos que o objetivo do jogo seja “destruir uma empresa fictícia que detona o mundo inteiro sozinha”, o que não é nada real (bom… vai saber…).

Mas e ai? Jogos precisam procurar respostas para problemas da humanidade? Claro que não. Mas eu não esperaria ver jogos com esse tema ainda por um bom tempo – pelo menos não com nada que a gente possa aproveitar na vida real. Claro, eu não sou ninguém para vir xeretar nessa temática, não sou game designer e nem ativista, adoro meter bala “nos bixo locão”, sou escritor de fantasia medieval e ficção e não de “como Marx era um cara estiloso” ou “porque, apesar de eu ser homem, vou me juntar a um monte de manés chorões que aproveitam a ondinha feminista de ficar babando ovo para as minas e ficam escrevendo livros com títulos do gênero ‘Porque Ser Mulher É Mais Legal Na Nossa Sociedade E Eu Sou Um Trouxa PhD Formado Em Ciências da Mediocridade Que fala Que Os Homens Cheiram Mal’”, meus gêneros favoritos são o RPG e a ação; sou formado em jornalismo e não em nanofísica para criar robôs microscópicos assassinos para causar geral, trabalho cobrindo a área de games e tecnologia em vez de ter continuado a cobrir Economia, uma coisa que dá muito mais status e evita que as pessoas olhem para você como um nerd fedorento de barba mal aparada e digam que você não faz nada, fui professor voluntário de línguas com um método de ensino próprio baseado em games e RPGs em vez de ter escolhido alguma coisa ferrada como “dar aula de física molecular em Harvard para caras que vão construir as armas de destruição em massa do futuro”, e, por acaso, continuarei a tocar a coluna hysteria, original do grande Marcio Barrios, daqui em diante até algum magnata resolver caçar minha licença para delirar. E, sim, isto foi uma apresentação disfarçada que ignora totalmente as regras da boa pontuação e das frases curtas e concisas.

Voltando ao tema, ao menos eu penso que não serão os games que introduzirão às novas gerações as ferramentas para resolver os problemas que temos sobre o clima. Imagina um MMORPG onde os jogadores podem se conhecer, reunir via crowdfunding dinheiro virtual (ou não) para criar zonas de coleta de carbono, que possam se informar sobre o que se passa no mundo real sobre meio ambiente e até bater violentamente nas marcas que mais prejudicam o mundo? Imagina como seria legal enquanto alguma grande empresa não resolvesse partir para o cyberterrorismo e explodir os servidores do jogo? Que firmeza que seria entrar em um jogo e receber uma mensagem “Bem-vindo de volta! 133.565.980 minks foram massacrados para virar casacos enquanto você esteve ausente!”. Ou, se fosse um jogo social no Facebook, que tal “Seu amigo XYZ lhe enviou uma solicitação para uma escopeta, para poder explodir cabeças de grileiros! Publique no mural de seu amigo e ajude a matar com requintes de crueldade fazendeiros que destroem a Floresta Amazônica!”. Pô, que estiloso. Quem não gostaria de jogar uma coisa dessas?

Bom… Falando sério? Sinceramente, eu não faço idéia de como seria um jogo que pudesse se aproveitar sobre meio ambiente. Você tem alguma ideia? Aliás, alguém acha que esse tema entrará em pauta nos jogos com mais frequência em algum momento, para começo de conversa?

No próximo Hysteria vamos falar sobre algo mais real… eu espero. Te vejo na próxima coluna!

Rafael P Moreno

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3 Comentario(s)

  • Heitor Polidoro 4 anos atrs

    Realmente é um tema difícil pelo fato de não ter um inimigo físico, como você disse. A única solução que achei foi a de jogos casuais, mais infantis, onde ensina a criança a reciclar, por exemplo. Um Paper Toss da vida só que com quatro lixeiras e a criança tem que acertar na lixeira certa, se acertar na errada perde mais pontos do que errar. Algo assim.

    Ou, algo tipo The Sims (ou até mesmo no próprio) que tenha um esquema de ligar e desligar as luzes, ou você tenha que controlar alguém que fica muito tempo tomando banho ou escovando os dentes. Isso refletiria mais na economia feita, mas está ligado indiretamente na preservação do meio ambiente.

  • drnico 4 anos atrs

    Sinceramente estou saturado do tema de sustentabilidade, mas talvez se viesse num formato diferente eu voltasse a me interessar, mas, enquanto estiver com essa apatia ao assunto, não imagino como seria um jeito original pros jogos falarem do assunto.

    Quanto ao texto, adorei o jeito com o qual vc foge do tema e o retoma ele sem perder (muito) o foco e aliviando o tipo de conteúdo (fica informativo e diertido :D)

  • Just proves the old adage. Its an ill wind that blows no good. – Theyve finally come up with the perfect office computer. If it makes a mistake, it blames another computer. Attributed to Milton Berle