Conversando com um amigo recentemente, me recordei de um mangá muito engraçado chamado “The World God Only Knows”. A história gira em torno de uma menina demônio atrapalhada que é enviada para recapturar espíritos malignos que fugiram do inferno. Eles se alojam entre as fendas de corações partidos de garotas (?), e é preciso que essas fendas sejam preenchidas por amor (?!) para expulsá-los. A menina acaba procurando e fazendo um pacto com um lendário cavalheiro conhecido como o “Deus da Captura”, com a fama de conquistar qualquer mulher. Se ele não bater as metas, ele morre. Mas para alguém com essa alcunha, conquistar umas meninas não deve ser difícil…

“E onde, nesse merchandising, entra o videogame”, pergunta você, caro leitor pequeno buckaroo firmeza que sempre nos acompanha, não? Pois o probleminha disso tudo é que o tal Deus da Captura é um nerd antissocial que só faz uma coisa da vida: zerar todos os Date Simulators, aqueles jogos onde você deve conquistar, quase sempre, colegiais japonesas de formas “avantajadas” – talvez seja o melhor jogador do mundo desse gênero, e daí vem o seu título. Um cara que nunca larga o seu PFP, videogame com ares de um certo portátil, e que treme feito vara verde diante do menor indício de um par de cromossomos X.

O desenrolar é uma sátira do começo ao fim de pessoas que passam a vida jogando Date Simulators e não conseguem nada, socialmente falando, com o sexo oposto. Lembrei-me disso porque hoje, Dia dos Namorados, é uma data perfeita para eu levantar um ponto que vem chamando a minha atenção. Vamos por partes.

Se você tem ou já teve namorada ou namorado, esposa ou marido, deve saber bem para que serve o Dia dos Namorados: é um esquema de mercado para alavancar as vendas. Temos outras datas assim no nosso calendário, quase que uma por mês. Mas tirando esse triste fato, convenhamos que não é das piores. Ficarem juntinhos em uma noite fria enquanto a coisa esquenta, comendo pipoca e… jogando The Sims Social? Ou Love Plus? Ou mesmo um God of War da vida?

Não, né? Não para pessoas normais, pelo menos. Assistir um filme é uma opção mais tradicional nessas horas. Qualquer filme – e não estou nem falando dos XXX. Claro, as drogas melosas de uma hora e cinqüenta de pura dor emo-afetiva de dar enjôo são mais comuns, mas não é uma obrigação. Quase qualquer filme comercial possui algo de amor, por mais rasteiro que seja. Só precisa não ser muito ruim. Alguns até giram em torno de relacionamentos – e porrada.

Agora vamos pensar: filmes não são interativos como games. Você pode até se envolver emocionalmente com a trama, mas não realmente a constrói, ela se desenvolve sozinha. O problema que vejo é que, em um, você pode se concentrar apenas na trama, enquanto no outro há também o aspecto do controle, e se você jogar com outra pessoa, pode acabar pulando um bom tanto de partes de história para poder voltar logo à diversão. E com o foco no agir em vez do sentir que a maior parte dos jogos possui (pegue um livro, um filme e um jogo da mesma história e compare-os, como você já está careca de fazer), fica difícil imaginar uma noite de Dia dos Namorados ter uma mínima relação que seja com games.

E nem digo que é para ser diferente. Tomo este exemplo apenas porque ele deixa evidente uma falha miserável dos jogos mais sociais que você pode imaginar, que é o fato de que toda relação interpessoal é pautada por emoções, e esses jogos colocam pessoas para se encontrarem virtualmente pautados por um misto de competição e cooperação vazias. A única coisa que jogos sociais provocam é um hiperestímulo da sua sensação de recompensa, ao poder vestir seu avatar com roupas nada haver ou comprar um item que custou os olhos da cara para, no fim, as pessoas olharem para ele e dizerem “se eu não tivesse que trabalhar e passasse a vida jogando, eu também teria um lixo desses”. E não, as mina não pira na espada + 5000 of Hellbringer’s Mass Destructions of Oblivion que custou US$ 7,99 (ou, se pira, fique longe dela. Algo não está certo…).

Se tomarmos The Sims Social como exemplo, vemos que ele é um jogo que foge um bom tanto da fórmula de sucesso do jogo clássico e offline. Você não precisa mais administrar sua casa, seu dinheiro e suas habilidades, que são a essência do jogo clássico. No Social, você apenas deve conseguir o maior número de amizades e encher seu guarda-roupas e sua casa de porcarias brilhosas para mostrar que é o King of the Hill. Claramente isso implica que o foco é ser capaz de projetar uma aparência de status. E status é muito importante nas relações sociais, mas óbvio que não é tudo. Um joguinho simples como o antigo bate-papo gamificado Habbo é capaz de aproximar muito melhor as pessoas – e não digo que seja bom para isso. Não é. É péssimo, não dá credibilidade alguma, é apenas uma brincadeira de interpretação. Mas ao menos é capaz de transmitir um mínimo de emoções, já que você conversa com outras pessoas. No The Sims Social, praticamente nem isso se faz, o seu foco está em você, no que VOCÊ ganha, no que VOCÊ compra, como VOCÊ se parece, e não na sua relação com o outro.

Tomei The Sims Social para crucificar porque é um jogo que me veio à cabeça, mas pense em qualquer outro social game e você verá que a fórmula, provavelmente, se repete. Social games são a coisa mais antissocial que já foi criada no meio eletrônico desde Carmageddon. Cara, sinceramente? Os primeiros Mario Party, sem conexão wi-fi, sem itens para comprar, sem customização de personagens e em meio a uma competição violenta dão de mil a zero em termos de sociabilização – pegue um dia para jogá-lo com sua namorada ou namorado e você verá. Não hoje! Algum outro dia…

Falando à vera? Banco Imobiliário é muito mais “social game” do que as coisas que se vêem por esses Facebooks da vida. Detetive é muito mais “social game”. Meu, até pega-pega, mãe-da-rua, esconde-esconde, futebol! Social game é uma ova! Vocês são uma vergonha para a sociedade, isso sim, seus jogos enganosos de uma figa, com suas fazendinhas com mais limões que a minha, seus vampiros vestidinhos fofamente e tal!

Cara, quem já jogou Counter-Strike em uma lan house ou rachou uma ficha de The King of Fighters de arcade com outros dois amigos, cada um pegando um personagem e se unindo para vencer os oponentes, sabe o que é jogo social de verdade.  É emoção, é pensar na sua relação com o outro – nem que seja o “outro” da sua equipe – e, acima de tudo, pelo amor do Deus da Captura, é ter contato com outras pessoas! Não precisa nem ser tete-a-tete, como eu já disse acerca de Habbo ou mesmo de salas de bate-papo, mas precisa existir.

E que não venham com essa de que o chat do Facebook já resolve a coisa porque não resolve: uma coisa é o jogo, outra é o que está fora dele. Ou o jogo promove relação interpessoal ou não promove. E social games não promovem, via de regra. O foco é você e nada mais, no fundo. Reflita sobre isso: não é porque um jogo tem uma leaderboard que ele é social, então porque todo maldito jogo que lhe permite “convidar” (“convocar” seria melhor”) amigos para ganhar algo se chama assim? Eu não tenho nada contra esses games, tirando o fato de que eles vendem uma suposta inter-relação entre jogadores que só existe na forma de interesses privados que não constroem nada de duradouro. Eu não sei, mas suspeito que você não passa mais de uma semana jogando cada jogo ali, tirando umas poucas exceções, né?

 

Os jogos parecem estar eternamente descobrindo com as tramas a causar emoções e esquecendo em seguida. Um dos jogos que mais me fizeram sentir próximo de alguém “recentemente” foi Heavy Rain, um single player, apenas porque havia uma pessoa do meu lado acompanhando a trama. Aquilo sim é emoção! E pensar junto também cria laços. Imagine um jogo assim com uma possibilidade para multiplayer?

Só uma última coisa: até há alguns MMOs um pouco sociais, onde se deve pensar no clã e tal, mas, de verdade? A indústria ainda tem muito o que aprender sobre criar emoções coletivas antes de rotular um gênero como “social”. Jogar um jogo porque ele te permite ter coisas ou ser alguém diferente, tudo bem. Mas, no fundo, estamos muito melhor servidos com Saints Row’s, Harvest Moon’s e Scarface’s do que com The Sims Social’s, Farmville’s e Vampire Wars’ se esse é o objetivo – o que, para jogos sociais, não deveria ser. Vão assistir Caverna do Dragão ou Thundercats antes de virem com esse papo de social, seus produtores miseráveis! Ou então rotulem direito esses produtos enganosos que vocês vendem! “Anti-social games”, tão ou mais que os Date Simulators (ao menos nestes há a preocupação em fazer o que a personagem que se quer conquistar gosta, por pior exemplo que seja. O Deus da Captura que o diga).

E agora, como fica quem argumenta que as mulheres jogam mais que os homens essas coisas porque elas gostam mais de relações sociais? De fato, segundo o estudo “Social Gamers” de 2010 da Hive, 55% dos jogadores de games do Facebook são mulheres. Mas, como eu já disse, esses jogos, na minha humilde leitura pelo menos, tem muito mais de projeção de uma imagem “ideal” perante a sociedade, e logo, de individual, do que de social. Minha opinião. Que ela e as de quem aqui expuser as suas sirva de sugestão para os produtores.

Rafael P Moreno

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9 Comentario(s)

  • disse tudo xD ótimo post

  • Poisony 4 anos atrs

    Acho que o problema dos jogos "sociais" é o mesmo das próprias redes sociais, que é o fator social extremamente controlado, a ponto da relação interpessoal ficar engessada mesmo. Isso cria esse monte de joguinhos sociais de fachada, que acham que botar leaderboard e opção de share no Facebook torna o jogo uma experiência social de fato.

    Tanto é que os momentos mais "sociais" que eu tive jogando alguma coisa online foram com amigos meus da Steam batendo papo durante o TF2 ou o Left 4 Dead 2.

    Mas o maior erro é que dia dos namorados é meu aniversário, que tem menos força comercial e de marketing envolvido.

  • TheMax 4 anos atrs

    Uau! Belo texto! A indústria "gamística" apela para o lado viciante dos seres humanos. Dão pequenas recompensas e limitam a jogabilidade para que você retorne mais tarde para jogar mais um pouco.
    Os jogos deveriam servir para divertir, mas quando qualquer um exagera na jogatina e passa a depender desta sociabilização virtual a "vida real" deixa de ter importância e o sujeito definha.

  • Haruki 4 anos atrs

    esse texto deu tanta volta q eu fiquei atordoado

  • Heitor Polidoro 4 anos atrs

    Ponto bem interessante, nunca tinha parado para pensar. Eles classificam 'social' só pelo fato de haver uma interação entre jogadores, se beneficiando mutualmente mas com o objetivo único de ser o 'pica das galáxias'…

    Só um detalhe: 'haver' é do sentido de existir, então a expressão é 'nada a ver'. Pra tirar a dúvida é só substituir o verbo 'haver' por 'existir'. 'não tem nada existir' não faz sentido ;)

  • Leonardo 4 anos atrs

    Diego: Momento desabafo, aqui no Fenix Down! Estamos aqui com ele: Rafael P Moreno!

  • Continuate cos

  • ewfewn 1 ano atrs

    kslfss