Entradinha de propaganda chata (quem pensar o começo da frase em inglês e imaginar uma musiquinha de furar os tímpanos talvez reconheça): “Vamos falar sobre como os games vão nos ajudar a salvar o mundo, nos fazendo dar importância para as coisas e facilitando nossa capacidade de tomar decisões”. Eu até ia comentar algumas coisas sobre Diablo III, Castlevania: Lords of Shadows – Mirror of Fate e por ai vai, mas uma coisa atraiu a minha fúria, então vamos descer cotoveladas e joelhadas nela, mesmo tendo apenas parte a ver com games. A coluna se chama Hysteria, pô, você queria o que nela? Sentido? Sentido é para os fracos. Avante.

Então nos vemos aqui, assistindo a um falatório louco pela internet com base na discussão da tentativa de estupro contra Lara Croft em seu próximo jogo. Justo. Não é a primeira vez que polêmicas orbitam os games, como tampouco qualquer forma de arte – especialmente as que esbarram no entretenimento. Não sou contra a abordagem de nenhum tema, desde que exista razão para tal – para quem nunca viu, por exemplo, eu recomendo muito o filme Anjos do Sol com relação à exploração sexual infantil. E este filme brasileiro e pouco divulgado, meu amigo, faz você se encolher em posição fetal e desejar jamais ter conhecido-o. Ou seja: é ótimo, e tem um propósito muito longe de ser gratuito. Não que o da Lara seja, mas… Ah, esqueça esse assunto, isso só serviu como introdução.

Maravilha, eu gastei o segundo parágrafo citando um assunto que não tem muita importância para o que me ocorreu pela milionésima vez após esse incidente, que é a estranha impressão de que conseguimos nos mobilizar com incrível dificuldade para obrigar o Congresso a aprovar a lei da Ficha Limpa ou coisa assim, e com incrível facilidade para criticar a política propagandística de um jogo – cujo roteirista talvez tenha feito uma cena dessas com a mais pura das intenções de fazer o jogador se aproximar afetivamente da personagem, ainda que certamente por ordem de alguém que achou que isso poderia dar visibilidade ainda maior para a coisa.

Eu já fiz uma coluna sobre games e meio ambiente a um tempo atrás, mas me permita aproveitar um tema recente para ilustrar a questão: a Rio+20. Games são muito legais e tal, mas vamos falar a verdade? Eu já vi mobilização maior por parte dos governantes de países para banir Carmargeddon do que para chegarem em um acordo produtivo na convenção. Longe de não ter havido mobilização popular, mas para a seriedade do tema, tínhamos mais é que trancar aqueles incompetentes decisores das nações ali e avisar que eles só receberão água e alimentos após concordar com cláusulas como o fundo internacional para o meio ambiente e o fim, mesmo que gradativo, dos subsídios para o petróleo – gasolina não é mais “barata” do que carros a eletricidade própria ou a hidrogênio porque o petróleo é barato, mas porque mais de US$ 1 trilhão é injetado anualmente pelos governos mundiais na indústria petroquímica a título de subsídio. Não entremos nesses detalhes, no entanto, porque nem eu sou ativista, nem a coluna é sobre degradação ambiental.

O engraçado disso tudo é que, sejamos francos: o que é mais importante, a tentativa de estupro contra a Lara ou as questões discutidas na Rio+20 e no seu patético documento “The Future We Want”? A título de nota, para quem o leu, está na cara que é justamente isso: o futuro que todos querem, já que lá só há desejos, mas nada de muito concreto para alcançá-los. Aquele documento lindo, que já se diz que devia ser intitulado “O Passado que já Temos”…

Não, sério. Mesmo que a discussão sobre a senhorita Croft diga respeito a certos abusos na arte, o que é totalmente discutível, a quantidade de comentários pela internet sobre esse tema, e a força que eles tiveram na retratação da empresa, me surpreendeu. Claro que se vai dizer que é mais fácil para fãs cobrarem uma empresa por uma explicação sobre que raios estão fazendo com a garotinha deles do que cobrar de governos uma saída para o aquecimento global, mas vamos falar a verdade: qual dos dois temas importa mais?

Então… ai está a questão.

Por incrível que pareça, dá para dizer que, para muitos, Lara é mais importante. Não que isso seja uma crítica (bom… na verdade, é), mas estive pensando: entre terminar a fase do jogo e ir socorrer um parente próximo seu que caiu da escada, o que você faria?

Só que não parece que o aquecimento global ou as leis mutretentas de aumentos de quase 150% dos salários dos parlamentares e da autoridade máxima brasileira como a que já foi sancionada pela Presidente Dilma Rousseff são importantes. Claro que sabemos que são, mas não há nada que nos compele a fazer algo a esse respeito. Não são temas agradáveis, e algumas das decisões podem ser até que bem amargas – levanta a mão ae quem ficou feliz com o fim (teórico) das sacolinhas plásticas gratuitas nos supermercados. Tirando esse cara, claro.

Só que, sabe? Teve (mais) gente que ficou feliz – quem lucrou com isso, claro. E tem gente que está muito feliz com a situação da extração petrolífera atual. E tem gente que gostou muito de ter reajuste de 150% do salário. E esses estão dispostos a lutar por essas coisas, enquanto a grande parte da população, em tese, não vai ganhar nem perder nada se essas coisas acontecerem, então por que brigar contra? Só porque sabemos que são coisas erradas a serem feitas? Cara, quase ninguém luta contra o que acha errado, luta contra o que acha que vai afetá-lo negativamente. Se duas pessoas estão discutindo aos berros na rua depois que uma delas, bêbada e na contra-mão, bateu no carro da outra, que se dane. Mas se alguém fizer isso com você, o negócio já fica diferente (se fizer comigo vai sobrar porrada até pra quem mora na Tailândia…).

Legal pensar nisso. Os games são coisas que causam empatia, ao contrário da repelente política tradicional, por exemplo. Da mesma forma, é possível usar as mecânicas dos games para fazer as pessoas se aproximarem de temas que antes não dariam a mínima.

Quer ver? Certo, imagine que, só para começar, abolíssemos o sistema representativo. É, em vezes desses jegues cada cidadão teria acesso a um computador, e que houvesse um site ou portal onde todas as leis seriam colocadas para votação por um prazo de uma semana, um mês, etc. Cada um entraria com o seu cadastro, como um login usando seu CPF e qualquer outra forma de verificação eletrônica, e poderia ou não dar seu voto para cada tema, de ordem federal, estadual e municipal dependendo de qual cidade você mora. Os votos, devido ao grande número de propostas de lei, na certa teriam que ser facultativos: se você não se importa com economia, não precisaria votar pelo aumento ou não do salário mínimo, mas se você gosta de games, na certa daria seu aval para o Jogo Justo, e por ai iria. Ou seja, se votaria nas propostas, não em algum cara dentre um bando que se digladiam nas eleições para ganhar um lugarzinho entre os políticos.

Mais importante: o formato do site deveria ser gamificado. Ou seja, cidadãos poderiam formar grupos de gente com causas similares, debater em fóruns e talvez ser ranqueado ou bonificado por manter presença e constância nessa ágora virtual – quem não iria gostar de subir de nível na área da construção civil por atuação importante na sociedade ao mesmo em que recebe 5% de abatimento do IPTU?

Iria ter muita gente que não iria entrar para votar nas decisões públicas? Iria. Mas isso acontece em qualquer lugar onde o voto é facultativo. O importante é que estaria nas mãos da população, e das pessoas que se interessam pelo tema, votar nele, em vez de escolher um palhaço e deixar ele tomar atitudes sem que eu saiba quais são. Daí bastaria que uma parcela X da população a ser afetada (digamos, um mínimo de 25% de participação do total de habitantes do município, Estado ou Nação, conforme a lei, e dos votantes, ao menos 50% mais um voto para a proposta ser aceita, ou coisa similar). Quero ver se, com a possibilidade de analfabetos decidirem o rumo da nação, não iríamos votar rapidinho propostas de melhoria da educação, feitas por estudiosos da área e gente com idéias inovadoras.

E quem decidiria quais leis entrar em votação? Um grupo de estadistas de carreira. Pelo amor de Deus, gente de carreira, gente que estuda para isso, e não políticos colocados ali a esmo. Gente escolhida com base na meritocracia, não em votos obrigados de gente que eles mesmos, quando no poder, fazem questão de manter na ignorância para garantir uma reeleição. Se a população tiver acesso ao dados, ou à maioria deles, das finanças do governo e dos impostos, e se dar ao povo acesso à internet (algo já difícil), o restante talvez se arrume com o tempo. Bastaria sugerir uma lei aos estadistas, e se ela fosse condizente e exeqüível, ela seria redigida e aberta para votação. Se acatada, seria encaminhada para execução em departamentos competentes.

Lógico, tudo isso é muito superficial, seria preciso um verdadeiro grupo de Game Masters para equilibrar as coisas e criar meios para evitar abuso. Afinal, uma proposta de aumento do salário mínimo em 100.000% não poderia passar nem pela triagem, mas mesmo que o fizesse, deveria haver algum sistema que forçasse coisas impossíveis assim a ter unanimidade, e por ai vai. Nada que um bom game designer não saberia fazer.

Sabe quando todos nós decidimos democraticamente se queremos banir o jogador chato X da sala para que possamos jogar um multiplayer maneiro em paz? Então, seria isso, só que em escala nacional e com temas que hoje não nos importamos, mas que se tivéssemos a chance de optar e certa facilidade para fazê-lo, o faríamos. Uma mistura de Facebook e urna eletrônica, não para candidatos mas para leis. E isto, grande amigo que sempre nos acompanha neste mesmo horário e canal, é uma – e apenas UMA – alternativa, apenas rascunhada, para o modelo representativo que temos hoje e que, sabemos, não representa droga nenhuma.

Claro que eu não imagino os brasileiros jogando esse Sim City 4 Real com nada abaixo de um golpe de Estado e na certa patinaríamos muito até termos formado uma sociedade culta o bastante para usar um sistema como esse em sua totalidade, mas serve para ilustrar que há opções para a nossa situação atual, e que temos muito a extrair dos games. Eu acho que se tivéssemos um sistema gamificado assim em alguns países, nunca que a Rio+20 teria sido feita dessa maneira tosca e terminado tão insossa.

E ai? Alguma idéia para acrescentar no projeto para quando nós gamers dominarmos o mundo e forjarmos uma sociedade com sede de platinar as resoluções dos seus problemas e onde muitos clãs competirão a esmo…?

Está certo, sem a parte dos clãs…

Rafael P Moreno

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1 Comentario

  • Realmente, a questão dos games estarem mais próximos das pessoas faz com que esse tipo de polêmica como a da Lara seja bem mais debatida, mas acho também que, principalmente no EUA, muitas crianças ainda jogam e isso também botou fogo nesse assunto, já que nesse caso os pais vão chiar com qualquer tema que seria impróprio (eles poderiam simplesmente não comprar o jogo, mas sacumé, reclamar parece que é sempre mais legal pra esse povo).

    Quanto a esse sistema de governo, não sei se seria bom, mas pelo menos seria melhor do que a gente tem hoje, pena que qualquer país está muito longe de algo assim.