Legal saber que “já” estão passando o novo filme do Homem-Aranha – eu, que sou um cara bem informado sobre a sétima arte, patinei pra caramba até descobrir quando ia ser o lançamento. E vejam só… já foi!

Lapsos de perda de conexão com a realidade à parte, não é novidade nenhuma que a maior parte das séries de sucesso acabam extrapolando o meio de origem delas e indo parar em outras formas. É livro que vira filme, mangá que vira anime, filme que vira HQ, jogo que vira exposição de quadros…

E sempre tem aquela história de “o original é muito melhor”. “Não, porque o livro dá de mil a zero no filme” e tal. Eu sou escritor de ficção, para mim é muito doce ouvir pérolas do tipo, mas em nome da razão, temos que deixar uma coisa clara logo ao começar a entrar nesse assunto: o original é sempre melhor.

Isso é verdade? Não. E nem significa que as outras formas sejam ruins. Mas é o que na maior parte das vezes acontece, e daria para a gente falar de três mil exemplos em todas as mídia, mas vamos nos ater em uns exemplos de games que viraram outras coisas e coisas que viraram games – sou muito específico, não?

Para quem não sabe, todos os jogos da série Resident Evil até o Zero (RE, RE2, RE3: Nemesis, RE: Code Veronica e RE: Zero) foram transformados em livros por S.D. Perry. Fiéis e muito bons, por sinal, vale a recomendação. E sabe qual da série é considerado por boa parte dos fãs o melhor? Underworld.

Agora você, fã ponta firme da série, deve estar se perguntando “mas que raios é esse treco?!”. Esse treco é, juntamente com Caliban Cove, um dos dois únicos livros dentre os sete escritos, que são originais, inteiramente criados do zero e feitos para serem livros, em vez de meras adaptações. Underworld narra uma série de acontecimentos por debaixo dos panos da Corporação Umbrella, e apesar de nada ali ser considerado canônico da série (ou seja, não é reconhecido como parte da história oficial), não deixa de ser muito legal mesmo assim.

Isso não significa que os outros livros sejam ruins. O trecho em Nemesis onde você lê pela primeira vez o berro gutural e insano de “SSSTAAAARSSS!” assustando a protagonista é impagável e certo de colocar um sorriso na boca de quem já jogou o game. Code Veronica é demais do começo ao fim, tal como o jogo, e por ai vai. A questão é outra: quando qualquer um desses livros narra cenas do game, ele sempre fica um pouco atrás do que foi a cena original, não importa com quão habilidade tenha sido escrito.

Mas Underworld foi feito para ser um livro e possui nuances típicos de textos literários, com trocas múltiplas entre personagens, cenas inteiras só com pensamentos e um tipo de ação focado no que os personagens fazem, e não no que o jogador – e, portanto, o leitor – deveria sentir na hora (medo, no caso dos primeiros jogos, presumivelmente).

Ou então, vamos pegar Iron Man. Nos quadrinhos? Virou lenda. Na telona? O primeiro filme foi bem competente. No jogo? Só a música tema se salva. Outro exemplo? Harry Potter, que virou febre na sua época e fazia todas as crianças (como eu) sonharem com aquele mundo descrito nos livros). E os jogos? Alguns até que bons, mas claramente não chegam aos pés de outros games realmente feitos para serem games. God of War, alguém? (apelão, não?)

Mas há alguns exemplos que destoam. E Batman: Arkham City? Bom… agora entramos nas exceções, e bem-vindo ao mundos das mídias diferentes.

Você já ouviu falar em semiótica? É, pergunta a esmo na lata, mesmo. Já ouviu? Sabe o que é? Semiótica é o estudo dos signos. Tudo o que tem significado para nós é entendido como um “signo”: uma letra do alfabeto, a cor vermelha de uma calcinha, uma mesa sobre a qual você sabe que pode repousar objetos, a Lua… Tudo, absolutamente tudo de onde você pode depreender uma idéia, é um signo e, portanto, é estudado pela semiótica. E acredite: a mente humana consegue extrair idéias até mesmo de maçãs que caem de árvores, então a semiótica quase que é a ciência de como nós lidamos com… tudo.

Ta, e o que isso tem com o Batman? Fácil: se você for parar para pensar, o que é uma HQ? Papel em branco com borrões de tinta que, por acaso, a gente consegue atribuir significado. O mesmo com livros. E o que são filmes? Jatos de luz sobre uma tela de cor branca. E os games? Projeções de radiação luminosa feitas de um jeito que a gente possa perceber ali algumas relações com coisas que já vimos antes. Cara, isso tudo são mídia: os meios pelos quais a gente extrai algumas idéias. É preciso mesmo dizer que, não, o Batman não está ali no papel ou na tela de verdade apanhando / batendo do / no cabrera do Coringa ou algo assim? Mas a gente entende, por alguns momentos, como se estivesse.

A boa notícia, ou talvez nem tanto, é que (e isso não é novidade para ninguém) cada meio possui uma linguagem própria. Não adianta tentar fazer em um filme exatamente a mesma coisa que se faz em um livro e vice-versa, há coisas que não podem ser transmitidas só com imagens e outras que levariam mil páginas para se descrever com exatidão o que se vê em três segundos. E isso vale para todos os mídia.

Historicamente era aceito que todo jogo de super-herói inspirado em filme era um caça-níqueis asqueroso. Batman vem se mostrando um exemplo de como fazer HQs, filmes, jogos e o escambau com qualidade, e isso começa por uma simples premissa: não adianta tentar fazer algo exatamente igual para tudo, isso não vai funcionar. Em vez de focar na história contada por outra mídia, como os jogos de Iron Man e Harry Potter fizeram insistentemente, foi antes de mais nada levado em conta os aspectos de cada meio. Jogos tem como diferencial a interatividade e o controle nas mãos do jogador, aspectos que não podem ser ignorados, enquanto que as HQs se sobressaem pela criação de uma história em frames, onde tudo entre eles é construído na mente do leitor, e por ai vai. Os produtores parecem (e friso o “parecem”) estar se dando conta de não adianta ser folgado. Para ter uma franquia multimídia de qualidade é preciso arregaçar as mangas e construir um produto do zero para cada meio.

Outros exemplos que vão parcialmente contra essa afirmação até existem. O MMO de Lord of the Rings não teve sua estrutura inventada do nada, foi baseada em uma série de livros. Mas se você for analisar a fundo, o que o jogo tem que vem diretamente de Tolkien? Resposta: sua lore – aspectos como raças, localizações e tal. Sua mecânica, isto é, o modo como as pessoas interagem com ele, porém, não tem nada de livro. Ao contrário, digamos, do primeiro jogo de Harry Potter, para PSOne e PC. Jogue e veja como você é guiado pela mão e forçado a fazer sempre a mesma coisa, limitando sua interação a um mero “aperte os botões corretos”.

A diferença disso para um God of War, por exemplo, você pergunta? A diferença é que GoW, ou Mario, ou Braid, ou o que seja, apesar de lineares, tem enfoque na jogabilidade e na capacidade do jogador de agir e reagir, geralmente possuindo um grau de liberdade de escolhas mínimo, enquanto que em games como HP1 o foco é “assistir à história do livro” podendo atirar magias e tendo que refazer tudo se você se recusar a fazer o que o Harry fez…

Os exemplos são inúmeros, desde os filmes de Prince of Persia e Tomb Raider aos games de Eragon, Cars e sei lá mais o que. É certo que muitos fãs querem nos estrangular quando escrevemos que “jogo X do Star Wars ou qualquer outra série deixa muito a desejar”. O que os fãs não entendem é que o jogo pode até nem deixar a desejar com relação à Star Wars, por exemplo, mas deixa a desejar com relação a ser um jogo, e quem deixa os amores por sabres de luz de lado ou não os tem percebe que, como game, tal obra é um belo filme. Do mesmo modo como um crítico literário não iria perdoar uma adaptação ao pé da letra de Halo só porque, bom, é Halo. Dane-se, pode ser Halo, mas talvez não seja um livro, então é medíocre pelo bem ou pelo mal.

Isso serve de exemplo apenas. Exemplo de algo que volta e meia uma série de críticos devem se relembrar. Para finalizar, leia o que foi falado sobre o novo filme do Spider-Man. Em muitos lugares foi dito que ficou melhor que os anteriores. E apesar de eu não me importar muito com filmes, sou fissurado por histórias de modo geral, me pego constantemente pensando em coisas como “O que faltou a Twilight Princess para eu ter aquela sensação de que isto é Zelda?”  ou “O que eu devo esperar da película de Samurai X?”. Então, se alguém ai ver o novo Homem-Aranha antes de mim, não deixe de comentar o que acharam, se preferiram ou não essa versão às anteriores e o que acham que mudou. Se o que foi dito aqui puder lhes ajudar a fazer críticas cada vez melhores ou incentivá-los a conhecer mais sobre a semiótica, é missão cumprida para mim.

Rafael P Moreno

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4 Comentario(s)

  • Acho que o sucesso do Arkham Asylum e do Arkham City se deve ao fato de não serem adaptações dos filmes do Nolan e nem de histórias específicas das HQs, são simplesmente histórias originais.

    Se as produtoras que detêm os direitos de Harry Potter e Iron Man tivessem a mesma postura da Rocksteady teríamos jogos muito melhores. Eu li os livros de Harry Potter e adoraria consumir mais coisas daquele universo, mas os jogos e filmes ficam com um gosto danado de café requentado.

  • Acho que a série Arkham ditou como devem ser as adaptações de games: mais livres e não tão presas a história. Faça algo que complemente e não que repita as mesmas coisas. Me lembro claramente de ser PIMPOLHO e jogar Harry potter 1 no pc. Era um jogo totalmente diferente do filme! Era muito mais amplo, tinha aulas, tinha o castelo para explorar! Isso me fazia gostar dele e continuar achando que o filme era também muito completo em sua própria proposta.

    • Rafael P. Moreno 4 anos atrs

      HP1 foi uma grande novidade na época do lançamento. Eu e meu super computador que tinha até dificuldades de rodar aquele game incrivelmente pesado desbravamos aquilo, pegando cada feijãozinho, tentando voar por cada argola, buscando cada passagem secreta… Acho que as melhores partes daquele jogo eram essas, porque as que tentavam contar a história ficavam, lógico, muito aquém dos livros. Aliás, não sei se alguém que não tivesse lido nem assistido nada sobre a série (impossível, mas vá lá) teria entendido o que se passa no jogo.

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