-Camper $*%$#%¨*#%#*, xis um agora!

Quando eu ouvia alguém na lan house falar isso, eu gelava. Claro, eu era sempre o camper $*%$#%¨*#%#*. Muitos diziam que “camperar” (ficar de tocaia em jogos de tiro, geralmente em primeira pessoa) era coisa de quem não sabia jogar. Mas quer saber a verdade?

É essa a verdade. Eu não sabia jogar Counter-Strike. Podia exterminar um terço do time inimigo com minha amada sniper e minha falta de noção, mas nunca soube jogar direito, correr para “operar” (esfaquear) outro jogador ou ser furtivo. Apenas tinha reflexos rápidos para “aponte-e-clique” – no caso, colocar a mira sobre o inimigo e atirar. Sabe aquele jogador irritante que dificilmente saía da cobertura e só morria na base de granadas, porque até tombar continuava atirando franco-atirador-style? Era eu.

E eu amava. Não era um modo divertido de ganhar, mas como camper eu sempre conseguia ter amigos que me cobriam. Em Battlefield eu era o cara da bazuca, que precisava estar com outros operativos e descia a chimbrola em veículos enquanto os camaradas iam para o tete-a-tete com a rapaziada que vinha a pé. Em RPGs (de mesa, mesmo) e MMORPGs, o mago, o cara que garante dano absurdo nos grupos rivais, contanto que alguém garanta as minhas costas. No futebol, o zagueiro, o cara que só estraga o jogo adversário mas que precisa dos meias e atacantes do seu time para ganhar.

Sabe, não? O jogador de equipe. Gosto bastante de solo play, de games do estilo de God of War onde você leva o mundo inteiro sozinho, mas para mim não há nada como um multiplayer – mesmo que competitivo.

Pois eis que, com este tempo de férias, voltei aos MMOs após uma longa ausência. Star Wars The Old Republic e Zone 4 foram os que mais tomaram meu não muito farto tempo de jogatina. Queria mudar um pouco, fugir dos games a que tinha me habituado. Eis que no primeiro combate de Zone 4 um jogador que devia ter gastado a mesada toda que sua mãe devia ter lhe dado para comprar bugigangas brilhosas in-game para ficar superpoderoso não parava de chamar os outros de “noobs”. Em um duelo seguinte, o que na certa era um mané em avatar de mulher não respondia nem mesmo a um “hi” mas sabia xingar quando recebia ataques especiais que detonavam a pontuação que apareceria na página dele para quem quer que a visse. Mais uma chance, e caí em um grupo de estrelas que queriam aparecer mais que o sol e não paravam de trocar farpas entre si por ficarem se atrapalhando mutuamente, estilo “se eu não sou o primeiro, ninguém é”.

Cansei depois de algum tempo. Em SWTOR, escolhi fazer um Jedi porque, claro, devia ser mais fácil trabalhar em grupo assim do que criando um Sith. Lógica não compactuada com a realidade. Ninguém atende a um apelo de socorro de um pobre padawan sendo empalado vivo por bestas absurdas, não fazem muita questão de dizer como conseguir um lightsaber amarelo e querem que se dane se você precisa cruzar a droga do mapa inteiro a pé, porque dar carona em cima do seu trambolho flutuante é para fracos. Mas que eles gostam de exibir seus trambolhos flutuantes e deixar claro que são “os ferradões” que poderiam te matar com meio golpe, ai sim.

Reconheço que estou tendo uma maré de azar na esfera “social” virtual, e que há quem lhe ajude como já vi antes, e como eu mesmo faço sempre que posso. Gosto de multiplayer, afinal, e não de “single player com muitos jogadores por perto”. Se fosse assim, eu iria logo jogar algo para um jogador, e não um MMO, caramba.

Yo no soy mariñero, soy marechal-ferradón

Então, recentemente li uma interessante matéria intitulada A turma do “eu me acho”, de Camila Guimarães, Luiza Karam e Isabella Ayub, no site da revista Época, que trata sobre as causas e conseqüências da onda, sobretudo pós década de 1960 segundo o texto, de “preciosização” da auto-estima das crianças. Não irei repetir aqui o que é dito ali, e recomendo que leia se gostar, como eu, de psicologia e sociologia, mas posso adiantar que a linha-mestra do texto assume que estamos nos tornando uma sociedade cada vez mais repleta de pessoas que se consideram o centro do multiverso. Não se trataria, segundo a matéria, de individualização apenas, mas sim de um retrocesso no tratar dos filhos, que não chegam a desenvolver bem o senso de coletividade.

Para ser mais claro, é assim: criou-se uma onda de educação “New Age”, onde se hiperestimula o senso de auto-recompensa de crianças, provendo-lhes com o for possível sem limites tão claros e lhes parabenizando por coisas que, uma vez aprendidas, poderiam muito bem ser obrigações dela, como se trocar sozinha. O texto assume esses parâmetros, e apesar de eu ter algumas ressalvas, concordo – pessoalmente – com bastante do que consta ali. Pelo menos com relação aos jogos, parece fazer sentido.

Histórias de grandes figuras que passavam sozinhas o rodo em todos não são marcas da modernidade, isso já ocorria com Hércules, Aquiles e seus panicats das mitologias antigas, que metiam a porrada mesmo e sem dó, há alguns anos (digamos… muitos anos…), e é daí que vem minha maior ressalva sobre o texto citado: se na ficção isso é tão antigo quanto atear fogo em Roma, que garantias temos que os antigos também não se chamariam de “noobs” e apunhalariam seus camaradas se tivessem jogos eletrônicos? Tudo bem, essa individualização nos games não prova que somos mais individualistas que nunca, até porque essa mídia já nasceu em uma época onde capitalismo era sinônimo de ser indivíduo, de ser único, e comunismo era sinônimo de ser parte de algo maior.

Mas me incomoda ver tanta gente em muitos games querendo aparecer às custas de exibições toscas de poder que só provam que eles gastaram muito dinheiro naquilo, ou que não tem nada o que fazer da vida. E eu adoro, como já disse, games solo, mas me incomoda um pouco, quando paro para pensar, a enxurrada de títulos (especialmente de RPG, que para mim sempre foi sinônimo de trabalho em equipe) apresentando somente um carinha tremendão e o mundo que se dane. OK, sem problemas com isso, Ninja Gaiden e Megaman e Metroid e tal eram mitológicos mesmo sendo individuais. Sem problemas…

…se não fosse o fato de que há muitos, muitos, MUITOS títulos assim. Não sei se é verdade ou não, mas parecem ser em maior número que os que permitem trabalhos em equipe dignos – e estou estupidamente feliz com a geração dos consoles online, levando a opção de disputas em grupo de novo aos holofotes. Evito pensar nisso, mas quando não tem jeito, soa estranho que tenhamos tantas histórias de jogos – e filmes, HQs e outras mídias – onde um cara só arregaça geral e só tem algum aliado ou aliada ali para fazer número e criar traminhas amorosas ou sei lá. Para mim, isso é reflexo do modo como queremos que sejam as coisas, um sempre vencendo todo o mundo.

Não tenho problemas com essas histórias, tenho problemas com uma sociedade de indivíduos cada vez mais infantilizados – é sabido que uma das características mais marcantes dos pequenos é não ter clareza que ele não é O Escolhido, O Especial e nem o Duke, que suas vontades não são ordens, que nem tudo o que ele faz é perfeito e que ele nem sempre está certo. Com bebês, tudo bem, mas traga isso para a vida adulta e o que temos? Um bando de irresponsáveis como o que vemos por ai, vizinhos tocando música tosca amplamente como se todos fossem obrigados a gostar daquela tralha assim como ele, gente que sai com carros e motos bebendo, causando acidentes e ainda achando que estavam certos e por ai vai. Meu, na boa? Não vou falar o que devia acontecer com gente assim porque não é ético, do ponto de vista do jornalismo, e porque eu poderia ser acusado de incitar a violência.

Só o Duke pode isso. Porque ele pode, e ponto.

No fundo, o que vemos ocorrendo, e tendo sempre ocorrido, nos games, essa profusão de títulos (muitos fenomenais, por sinal) onde você é o máximo e ninguém te cata, deve ser o reflexo do que queremos ser enquanto indivíduos (e somos nós que compramos os jogos, então é óbvio que eles são feitos para nossos gostos). Uma coisa é evoluir, se tornar melhor a cada desafio superado. Outra coisa é não haver trabalho em equipe porque o protagonista simplesmente não precisa de mais ninguém, ele é mito e se garante sozinho. O primeiro é fato, o segundo é o oposto de tudo o que trouxe a humanidade ao que ela é hoje, que é a cooperação.

Sabe? Quando você vê coisas como a do massacre que aconteceu no lançamento do novo filme do Batman, lá nos EUA, não fica para você, leitor ponta-firme e bem-informado, um pouco a idéia de que não gostamos mais de nossos semelhantes, achamos que nos viraríamos sozinhos e que os outros, cada vez ais, servem só como obstáculos ou como testemunhas do quanto somos legais e ferradões, indivíduos melhores que todos e tal? O problema do que está acontecendo é tão pior do que estamos achando que é que, se formos pensar bem, qual é a diferença desse individualismo extremado para, digamos, o nazismo?

Talvez sejam duas diferenças: a primeira é que, como indivíduos, não temos o poder para criar massacres das proporções do que se viu entre 1939 e 1945 – ainda, pelo menos (aliás, vocês viram o jogo Watch Dogs? Meeeedo… e miiiiito!).

A segunda diferença é que o nazismo, após o início de sua fase mais dura, pregava a superioridade de uma coletividade sobre outras, não de um indivíduo sobre todos os demais Olhando por esse lado e pensando bem, um monte de jogos por ai nem pareceriam tão divertidos assim… se você estivesse no controle de um dos muitos Zé-ruelas da população em vez de ser o maluco doidão que devasta tudo. Só um devaneio a esmo…

Rafael P Moreno

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5 Comentario(s)

  • Rodrigo J.A. 4 anos atrs

    Muito bom!
    A maioria dos jogos está focado no quanto o personagem principal é forte ou coisas do tipo, é por isso que um gênero que gosto são os RPGs Táticos como Final Fantasy Tactics, Fire Emblem e Front Mission, onde apesar de você estar em um jogo single player, você geralmente é apenas um personagem e com algumas "fraquesas", precisando da ajuda de vários outros para passar por desafios, fazendo com que você "trabalhe em grupo" com outros personagens, apesar desses personagens também estarem sendo controlados por você, e isso é um ponto forte nesse gênero, pelo menos é o que eu acho.

  • Caralho, fazia algum tempo que eu não lia um texto sobre games (acho que na verdade sobre comportamento né) tão bem ambientado e bem escrito! Parabéns.
    A indignação, natural das pessoas que não olham para o próprio umbigo 24/7, não se limita, pelo menos para mim, aos games, creio que os games são um mero reflexo da merda (como diria o Alborghetti) que a sociedade tem se tornado, podemos ver exemplos de falta de senso coletivo em contextos simples, como no trânsito (onde ninguém quer saber do direito de ninguém, onde a pressa é única e individual, claro!) ou em situações acadêmicas ou de trabalho, onde conquistas individuais parecem tomar proporções infinitamente maiores do que as coletivas!
    Acredito que, a troca da possibilidade de dividir a alegria, orgulho, recompensa ou seja lá o que for de uma conquista em equipe por algo individualizado, onde o máximo que se pode fazer é comentar e eventualmente se gabar de algo (ou desfilar de planador na frente de um mero padawan) é simplesmente fazer uma escolha errada. Infelizmente cada vez mais o grupo do "vamos fazer isso juntos" parece diminuir !

    Excelente texto !!

  • alwaysdsame 4 anos atrs

    Primeiramente, ótimo texto! Muito bom mesmo, bem escrito. Concordo com o @Lostew que a tempos não lia um texto dessa forma a respeito de games.

    Concordo muito com o que você disse no texto ali em cima, e passei muito pelo que descreveu, mesmo sendo um pouco diferente.

    Eu sou nos MMO's sempre o tanker (aguenta muita porrada para quem não sabe), mas não daqueles que conseguem segurar bem e se viram sozinhos, eu gosto do estilo em que seguro qualquer coisa que vier para cima mas preciso de alguém para bater por mim, pois essa (na minha opinião de merda) é o grande chamativo dos MMO's, o trabalho em grupo.

    Eu tinha parado de jogar MMO's por não conseguir fazer mais amigos, apenas players que queriam minha ajuda para alguma coisa, geralmente matar monstros mais fortes, e depois sumiam ou paravam de me responder quando não precisavam mais, logo o jogo ficou monótono e parei.

    Felizmente um grupo de amigos meus (Off game) estavam jogando um MMO juntos, e fizeram um pequeno grupo de amigos para jogarem juntos me convenceram a jogar com eles e tudo ficou mais divertido, me prendendo novamente aos MMO.

    Chamamos a atenção de alguns players dentro do próprio jogo por sempre estarmos com o mesmo grupo, e logo mais pessoas começaram a se juntar a ele, pedindo para entrar ou conosco os chamando.

    Hoje estamos em uma grupo com mais de 20 playes que jogam juntos e conversam via TeamSpeak, ja fizemos pequenos encontros Off Game onde muitos que moravam perto foram, conheci muitas pessoas legais e fiz amizades que cresceram muito.

    Enquanto escrevia isso eu percebi o quanto tive a sorte de ter um grupo de jogo tão legal como eles, e garanto que se não fossem essas pessoas ainda estaria muito receoso em jogar MMO's.

    Go go Mirai, PW Arcádia! =D

  • FelipeRaabe 4 anos atrs

    A união faz a força!
    Por isso que eu sempre jogo de Kobold =p