Não é muito difícil para mim largar o controle e ir fazer outras coisas, apesar de quase sempre eu acabar voltando para os games por entretenimento, trabalho ou para ver se encontro respostas para alguns temas não resolvidos. Acho que tanto a arte imita a vida como o contrário, e os games parecem ter um grande poder de sintetizar questões sociais que muitos livros não conseguem, se você analisar bem. E, oh, como os MMOs estão sabendo aproveitar isso tudo sem que saibamos… Eu já explico o porquê.

Outro dia, conversando com uma vizinha em um camping em Itu, toquei na questão do filho dela e seu namoro. O rapaz de trinta e poucos anos, amigo meu e que mora com eles, conheceu uma moça via Orkut, já nos tempos de Facebook, e aparentemente estão se dando muito bem já há algum tempo. A conversa ia reluzente. Contudo, não levou muito tempo para a mulher comentar: “É estranho, ele ainda parece um pouco imaturo. Meu esposo, na idade dele, já tinha filhos, casa e sustentava a família fazia tempo.”

A questão é: o rapaz não parece imaturo. Parece perfeitamente normal… para os padrões atuais. Não sei se é atraso contemporâneo ou precocidade de outrora, e isso é questão de ponto de vista e largamente desimportante para o momento. Apenas há o fato de que fazemos certas coisas mais velhos do que antigamente. Por exemplo, um dos meus avos se casou com vinte e um anos, e a mulher dele, minha avó, com dezoito. Todos devem ter experiências mais ou menos similares. Como, porém, é claro que casamento não serve mais de tanto parâmetro, por birra comecei a procurar alguns outros padrões. Dentro e fora dos games, porque dentro tem muita coisa, mas nem sempre tudo é tão claro assim.

Quer dizer: tirando o monte de games onde você já é ferradão desde o começo, e que só tem mesmo isso para apresentar. Ai é claro, sim. E é claro que há os games que tiram sarro disso, que eu acho geniais.

 

No More Heroes: Lição de humildade do começo ao fim

Fui avisado que na Veja São Paulo da semana tinha uma matéria sobre as questões mais discutidas nos divãs da Cidade da Garoa na atualidade, e mesmo nunca lendo a revista, dessa vez o fiz – não tenho preconceitos com ela, apenas uma série de ressalvas e uma tendência a considerar quase todos os temas que são destaques nela pouco interessantes, mas não dessa vez. E não é que lá estava, na página 37, um quadro sob o título de “Confissões de adultecente” que fala justamente disso? (os títulos da revista são tristes, contudo…).

Consta na matéria de Daniel Bergamasco que “na Região Metropolitana de São Paulo, 31% das pessoas entre 25 e 34 anos ainda moram com os pais. O número é superior à média nacional (27%), que cresceu 40% nas últimas décadas”. Não considero isso questão para divã, muito embora seja algum fenômeno sociológico. O interessante, na verdade, foi a afirmação que estava perdido lá no meio do curto texto: “Muitos agüentam a situação, porém, porque querem começar a vida no padrão dos pais. (…) Fazem curso de cinema, mas acham injusto começar como segundo assistente.” (Veja São Paulo, reportagem “Aflições Paulistanas”).

Essa opinião, no fundo, é do psicanalista entrevistado Christian Dunker. Agora, você não deve mesmo estar achando que eu engoli que o problema único e último é esse mesmo, não é, caro leitor? Muito embora eu já tenha discutido algo sobre como muitos estão individualistas nos games, o que podia até ter algo a ver até com algum certo grau de (i)maturidade, daí para comprar que isso é uma verdade geral não dá. Mas acredito que muitas pessoas vão a consultórios psiquiátricos com questões assim, e, por já ter mexido com economia, reconheço que os tempos são outros.

Antigamente, tomando como exemplo o Japão, o salário de um funcionário era pensado para que ele pudesse sustentar sozinho uma família. Obviamente que, com isso, os gastos eram menores, se compravam menos coisas supérfluas e a economia girava menos. Atualmente, fazendo as contas, se percebe que para uma casa funcionar com um padrão que muitos esperam, é preciso um par de salários “mais ou menos”. Daí fica complicado para um filho ou filha, sozinho(a), sair da casa dos pais sem a ajuda deles e manter o mesmo padrão. Isso no Japão, mas no Brasil não é diferente.

 

Quer dizer, você terá problemas... a menos que você seja um desses caras. Onna no ko wa nekkyouteki ni natte.

Só que, ao contrário do que aparece na matéria da Veja São Paulo, talvez não seja unicamente porque o “moleque mimado” (palavras minhas) ache “injusto começar como segundo assistente” (palavras deles), mas porque o que ele irá receber não lhe permitirá deixar a casa dos pais. É óbvio que tem muita gente tratada a “mamão com leitinho” (palavras do Away) que acham que começar por baixo é rebaixar seus intelectos geniais e suas figuras ilustríssimas (vide Hysteria 13), mas por outro lado já não dá mais para se manter sozinho em São Paulo com um salário de início de carreira (a menos que o início da carreira já seja no patamar de CEO, para alguns bem-afortunados por ai, claro…).

Justo, se isso representa uma baita queda no padrão de vida que lhe fará raspar arroz frio na calçada do boteco da frente para ter o que comer. Por isso, vou me focar no que deixa de ser justo e passa a ser egocentrismo – com tudo o que ele traz, como a falta de noção de responsabilidade sobre as contas e tal.

Ultra Kinigti Money-a-lot

Qualquer um que já jogou MMORPGs já deve ter se deparado com um fenômeno que eu, particularmente, acho impagável: um avatar cheio de itens ultra-ferrados, comprados com grana de verdade, controlados por jogadores que mal sabem o que estão fazendo, mas que adoram posar de líderes máximos do jogo. Pior é que muitos deles ganham PvPs contra jogadores visivelmente melhores e mais experientes apenas porque conseguem atingir dois ou três golpes com sua Meta Espada de Orichalcum Adamantinum-Vibranium Hadoukanalish of Fiery Flames of Fire +121614.

Não que isso seja errado: o jogo permite. É um dos modos das empresas ganharem seu pão (as coisas não estão fáceis pra ninguém…). Eu não repreendo essa tática, mas fico pensando: qual é a graça de já começar superpoderoso e acabar com o jogo sem esforço? O que é fácil não tem valor. Era legal, admito, colocar códigos em Doom e apenas debulhar tudo que vinha pela frente ou ganhar grana demais em The Sims com um cheat e só gastar tudo, mas era óbvio que só chegávamos ao ponto de usar essas trapaças, geralmente, depois de nos divertir e ralar um bocado. O jogo parecia perder muito rápido a graça depois que você podia fazer tudo sem esforço. Mas e não é que hoje, com os games online, esse desabafo de poder esmigalhar uma única vez o chefão que sempre te dá uma canseira do caramba com um único soco virou praxe para alguns?

 

Confesso que não entendi nada dessa imagem, mas tem bichos grandes e fogo. Ta bom para mim

A única ressalva que eu tenho sobre isso é que, no caso dos MMOs, parece que várias das pessoas não adquirem itens superpoderosos apenas porque chegaram em um estágio que querem ver tudo queimando em 0.1s, depois de tanto trâmite, mas sim porque querem parecer absurdos para os outros. Em vez de a graça vir do jogo, parece vir da suposta posição social que seu poder comprado lhe confere entre os outros (como se tivesse mesmo muita gente que ficaria extremamente surpresa em ver sua capacidade de matar o monstrão que você estava batendo havia meia hora com um golpe só e sair correndo estilo “cool guys don’t talk nor look at explosions”.

Sabe aonde pagar para aparecer é comum? Em classificados de jornais. Em redes sociais para profissionais, como o LinkedIn. Em sites de relacionamentos, vá lá. Basicamente, em situações onde o seu emprego ou outro aspecto importante da sua vida depende daquilo. Parece-me que as empresas de games descobriram que o contato social, mesmo que deturpado, feito através de avatares e coisinhas assim, pode ser muito importante para várias pessoas. Elas não pagam mais pelo entretenimento, pagam pelo potencial de aparecer, de já começar do zero sendo incrivelmente poderoso, como se houvesse algo imoral em um dia já ter portado uma… *gulp* espada de treino newbie.

Agora: não me pergunte como cada vez mais chegamos ao ponto de achar normal e compreensível já querer começar do topo em ambientes pseudo-sociais, mas acho que é esse encanto de poder satisfazer o fetiche de sermos ferradões e fazer coisas sem o menor esforço, como personagens icônicos tal qual Sephiroth (Final Fantasy VII), Kratos (God of War) e Don Juan (lugar nenhum) fazem parecer, cada um em suas respectivas áreas, que torna MMOs, e principalmente jogos sociais, ao mesmo tempo interessantes e coisas de cada vez menor longevidade. Se você pode comprar seu sucesso em um minuto, você tem em essência o poder de tirar toda a graça de uma competição em um estalar de dedos, afinal. Se as Olimpíadas fossem fáceis, não teriam valor, por exemplo. E parece que é isso o que se configura em alguns campos dos jogos digitais: jogar passou a ser o de menos. Provar para si mesmo e para os outros que você nunca passou um perrengue com um bando de goblins fajutos é muito mais importante, para alguns (que não são tão poucos como a palavra “alguns” pode fazer parecer).

Isso é que soa uma ironia. Trazendo para outros jogos o que é possível fazer com outros games, é como se um time de futebol pudesse começar já com cinco gols a mais, sem nem ter jogado antes com o adversário. Games permitem algumas coisas no mínimo curiosas e que, até onde eu saiba, é inédito na história da humanidade abertamente nessas proporções (claro que todo mundo já deve ter deixado seu priminho começar com uns gols a mais, só para virar o jogo e fazê-lo chorar, mas não jogos entre desconhecidos e tal. Uma coisa é você ser bom no que faz porque já fez muito, outra é comprar benefícios).

"Problemas de sair do zero na escalada para ser bom? Consulte um psiquiatra. Eu consultaria, entende?"

Resta entender a razão disso – e felizmente isso não acontece sempre (só que eu também não vejo grandes salvações para os jogos sociais nesse aspecto…). Seria o anonimato da web que nos permite comprar vantagens que só teríamos após muito tempo de jogo sem sentir os olhares indiscretos? Ou é a facilidade? Ou, talvez, o que já foi discutido, essa necessidade de já começar em um estágio elevado, que parece ser quase uma pressão social contemporânea? Ou talvez seja tudo isso e outras coisas mais, todas juntas? Alguma idéia?

Seria, aliás, muito interessante ver algum estudo sobre como pessoas de diferentes faixas etárias se comportam nos games, para ver se é verdadeira a suposição de que os que mais compram seus tíquetes para o superpodeirismo, em MMOs sobretudo onde o impacto para a comunidade de jogadores é mais sentida que em games sociais, são mais jovens ou não. Muitos desses “MetaKinigtis666Ferradaum”, pelo modo de agir, parecem, mas não dá para se ter certeza. Qualquer que seja o caso, essa necessidade das pessoas de já começarem do quinto degrau de uma escada de sete é uma miuna de ouro, atualmente, para as empresas. Só que para algumas, essa mina parece ter dado sinais de estar desabando, como é o caso da Zynga. Afinal, se todo mundo interessado em games e com conta no Facebook já jogou os dela, e eles cansam muito depressa mesmo com seu empoderamento que torna tudo fácil e desprovido de desafio significativo, não é surpresa que esse tipo de negócio de jogos sociais seja mais uma bolha entre muitas. Se é ou não é outra história, mas que está parecendo, está.

E você, o que acha sobre os social games e sobre a compulsão de não começar do “chão da fábrica”? Concorda, discorda, gostaria de acrescentar algo ou opinar, conhece alguém que seja assim e não goste de começar uma escalada para o sucesso do chão? Deixe seu comentário, se tiver algum. Boa semana e muitas conquistas platinadas ae, campeão.

Rafael P Moreno

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4 Comentario(s)

  • GabrielVRosa 4 anos atrs

    Concordo plenamente,tem pessoas que nem tem o esforço de aprender os comandos básicos e já compram tudo de inicio,aonde esta a graça nisso,pelo que eu saiba,normalmente tirando varias esseções como flower,os games deveriam proporcionar um desafio,e quando você passa esse desáfio e assim zerar o game é aí que esta a graça na minha opinião,se você já começa com tudo e só conseguiu isso com o esforço de dois clicks(se vocês me entenderam) pra mim ele não passou o desáfio,mas e fato que existe gente(os famosos pousers) que fazem isso pra se acharem maiores que os outros no game

  • Lubomir 4 anos atrs

    Concordo em partes com o texto.
    O que já percebi sobre pessoas quererem pagar pra ser o melhor em MMOs, além do status fake de ser o 'mais melhor' do jogo, é a questão do tempo.
    Alguns tem um tempo muito curto pra se dedicar a um jogo longo, em que o seu grupo de amigos avança de Lv bem mais rápidos que vc, e fica desmotivante quando o jogo não permite repartir exp em parties de jogadores com níveis muito diferentes (sistema criado justamente pra impedir que noobs subam de Lv mais rápido do que deveriam), e compram os equipamentos mais toras só pra não ficar pra trás, correndo atrás do prejuízo.
    Outros compram pra evitar de ser o noob DE NOVO, seja porque mudou de servidor e tem que reiniciar o personagem (por exemplo, um servidor pirata que fechou), normalmente já dedicaram tanto tempo de suas vidas nesses estágios iniciais (e até estágios medianos e avançados) que revivê-los é maçante e 'desnecessário' por já conhecerem tudo do que precisa ser feito. Esses são os que só querem continuar de onde pararam.

    No mais, adoro os textos do Hysteria, sempre muito bem escritos e tal, só não comento muito pq normalmente concordo tanto com o que está escrito que não tenho nada a acrescentar nele, mas acho que isso é só comigo.

  • Muito boooom o post isso nos faz pensar na importancia da "curva de aprendizado" e como ela é importante tanto nos games e fora dela, pois a pessoa que esta acostumada a ter sempre algum tipo de "facilidade" quando se depara com alguma "situação" na qual não pode utilizar qualquer faciltador ela acaba se frutrasdo e por fim desistindndo sem realmente tentar comportamento que pode tomado em varios aspectos da vida dessa pessoa. Começar do zero pode ser chato mas é recompesador além disso passamos a valorizar tudo que conquistamos com o nosso esforço. ( vide Demon's e Dark Soul's ). Resumindo é muito bom curtir um lugar ao sol mas fica melhor ainda você saber que você esta curtindo graças ao seu esforço.

  • Wonderful data, numerous thanks towards author. It is incomprehensible to me now, but in basic, the usefulness and significance is overwhelming. Thanks yet again and fine luck!