Antes de mais nada, para quem reclama que eu minhoco demais entre os raciocínios (e eu faço isso mesmo, sem dúvida), este texto, no fim, acaba tratando das Paraolimpíadas e do descaso com gente que supera tantos ou mais obstáculos que os esportistas tradicionais. Mas antes, vamos falar sobre um tema igualmente sério e que tem tudo a ver: pessoas que atiram fogo e raios pelos olhos. Observe atentamente a imagem abaixo (desculpe, não sei a fonte, quem quiser clamar autoria nos comentários, fique à vontade):

Quando eu, vagando pelo Facebook, olhei para esta ricamente desenhada obra de arte me recordei de longas discussões que eu e um amigo meu tínhamos (na verdade, ainda temos, quando temos a chance) sobre superpoderes e seus problemas. Coisa que só quem joga RPG e já se viu repetidamente com a difícil missão de inventar habilidades efetivamente criativas vai entender). Nós sempre avaliávamos, junto com a informação que outros sites e que nós mesmos íamos notando, como um superpoder frequentemente necessita de outros para funcionar.

Imagine, por exemplo, o poder de atirar fogo pelas mãos. Um clichê clássico e demais. Agora pense que, para um super-herói poder usar tal habilidade como mostram, ele, no mínimo, precisa também ter imunidade ao fogo – nem que seja ao fogo que ele mesmo cria, se é que faz alguma diferença – ou ele se daria muito, muito mal. O mesmo com caras que disparam eletricidade e outras fontes similarmente perigosas (muita sorte que o Benimaru, o lutador que cria bolas de raios na série The King of Fighters, não precise usar marca-passo, ou teríamos um problema). Ou alguém como o Flash, que corre a velocidades absurdas, precisa também ter super-resistência, ou o atrito com o ar lhe estraçalharia. Sem contar que ele deveria pegar fogo com o aumento da temperatura, tal como um meteoro entrando na atmosfera. Tudo isso sem falar que o arraste que ele criaria no ar provavelmente arrancaria suas costas e arrastaria tudo atrás dele consigo, além de criar um estrondo que ensurdeceria permanentemente quem estivesse por perto… Por outro lado, alguém capaz de mover as suas pernas naquela velocidade provavelmente seria capaz de se manter no ar batendo-as e, com isso, criando o empuxo necessário, quase como as asas de um beija-flor.

E o Ciclope, então? Coitada da mãe dele durante o parto – ou ela tinha resistência a raios laser, ou ele desenvolveu aquela habilidade mais tarde (não sei a história dele, me perdoem), ou o Scott fez a própria cesariana na barriga da progenitora dele, sem anestesia nem médico…

Pensando nesses negócios incrivelmente importantes, me ocorreu, inicialmente e pela zilhonésima vez, que não temos de fato muita gente fictícia em histórias do gênero cujas façanhas estejam dentro do que chamamos de possível (dentro das leis do mundo real, obviamente). Não dê ouvidos, não precisa, é uma divagação. A segunda coisa é a de que seria muito legal vermos “sub-heróis”.

"I, the blue cool guy, watch the Watchmen. Problem?"

Por isso, me recordando de uma conversa com um outro amigo sobre uma história que seria mais ou menos por essa linha, fiquei refletindo sobre os “sub-poderes”. Alguns eram de criação de um camarada meu, outros de minha própria cabeça e um ou outro (pontos três e quatro) até figuram nos meus livros – que não são de super-heróis, mas enfim. Esqueçam o merchandising (nada) oculto* e vamos a uma pequena lista. A razão disso tudo aparece depois dela. Ah, já fica constado ai a pergunta: que sub-poder você gostaria de ter? (Ta bom, ninguém em sã consciência gostaria de ter a maior parte dessas drogas, mas enfim. Alguns até que são legais)

  • Personagens “capazes” de controlar partes ou ações do corpo que normalmente não podemos, como a dilatação das pupilas, a criação de hormônios como testosterona e cortisol ou os músculos do corpo. Na verdade, “capazes” não é o termo: eles seriam obrigados a fazer isso. Imagine um cara que precisa se preocupar em manter músculos (incluindo o coração) funcionando… Obviamente que ele não poderia dormir, senão já era. Ou isso ou o corpo só assumiria tais funções quando ele estivesse dormindo, tanto faz.
  • Gente com a habilidade de “desligar” um sentido para aguçar instantaneamente os outros. Esta até que é bem legal, então eu tinha que botar algum problema. Que tal se, para “religá-los”, fossem necessárias algumas horas até que eles voltassem 100%?
  • Uma pessoa que cria estática com muita facilidade, e não consegue controlar isso. Ela dá choques fracos mas nem tanto em quem toca, frita celulares e outros aparelhos eletrônicos, toma choque ao encostar em objetos metálicos ou ao tomar água ou banho, ateia fogo em papéis, tinta, tecidos e outros materiais inflamáveis, afeta bússolas, interfere com comunicações sem-fio, entra em ressonância ao receber um choque de uma corrente de 110V que pode fazê-la sofrer paradas cardíacas e por ai vai. Coitada de uma pessoa assim, não poderia nem sequer beijar outra pessoa… Imagine o psicológico de alguém nessas condições.

É, eu sei em quem você pensou ao ler isto. Mas não, no fundo o negócio seria bem pior do que parece no jogo. E sem os raios pulando.

  • Sabe a capacidade de se transformar em outra pessoa? Então, só que alguém poderia ter a habilidade de transformar apenas seu psicológico, seu modo de pensar. Seria capaz de passar de alguém tímido para um louco, alguém engraçado, heróico, cafajeste ou qualquer outra coisa. Em contrapartida, essa pessoa não teria uma personalidade clara para si mesma, e as suas formas de agir também poderiam sofrer reveses aleatórios, tanto quanto intencionais, só sendo controladas por meio de drogas pesadas que ferravam com a saúde do indivíduo.

São só exemplos. De gente que respira exclusivamente coisas que não oxigênio a outras capazes de sintetizar em seus corpos elementos químicos ou substâncias preciosas para grandes corporações mas que comprometiam seu organismo, dá para fazer uma lista absurda.

Eu particularmente amo histórias com elementos assim. Também gosto de super-heróis, claro, mas… pô, alguém com alterações no corpo que podem tanto ajudar quanto atrapalhar sempre, e que não garante nenhuma vantagem absurda? Isso sim é demais!

E ai, assistindo ao desfecho das Olimpíadas, me lembrei, por acaso, das Paraolimpíadas. Pô, que legal, quase ninguém cobre esse evento, não? Do jeito que se faz, dá a impressão de que os caras encerram tudo, baixam as portas, apagam a pira e falam para os atletas paraolímpicos “ow, pode ficar brincando ai até mais tarde, mas o último a sair apaga a luz do estádio, beleza?”.

Deixando a zaga no chão

Cara, eu nem precisava ir longe a ponto de inventar novas “deficiências que podem ser úteis de vez em nunca”. Cara, há gente ai com histórias muito mais legais do que as que vemos nas Olimpíadas em si. Muitos atletas sofrem para chegar até lá e improvisam treinamentos para vencer medalhas na bacia das almas e contra todas as chances? Sim. Mas não é por isso, parece, que vemos as Olimpíadas, e sim pelos resultados. Justo, claro, querer ver gente fazer coisas que fazem você falar “Mano, esses filmes de hoje são muito viagem, né?… Oh, wait, isso é real?!”.  Mas é curioso que também não desejemos saber quem é o jogador de futebol de cegos que fez mais gols e tal. Pense bem: quantos gols você acha que faria se tapasse seus olhos e fosse jogar aquilo? Pô, é um desses negócios que, depois que você joga, deve dar para dizer que aquelas meninas nas traves ou os malucos nas argolas não fizeram nada mais do que a obrigação…

De certo modo, me fez pensar o que a gente procura ver em jogos – e não estou nem falando em videogames apenas. Eu sempre achei que fosse o desafio e a superação, mas se esse é o caso, porque as Paraolimpíadas não estão entre as coisas mais assistidas do mundo (nem perto das Olimpíadas, ao menos)?

Há um livro chamado The Game, de Neil Strauss. É um livro sobre a arte da sedução, mas é interessante o modo como “Style”, o apelido do autor, e outros pickup artists acabam sem querer por transformar o interesse em conquistar mulheres em um jogo. Chega uma hora que o objetivo já nem é mais atrair uma dama pura e simplesmente, mas sim fazer coisas sem-noção como roubar uma mulher de cinco homens ou conquistá-la vestido de mendigo e coisas assim. A graça, no caso, estava em ser um desafio útil e que estivesse anos-luz à frente do que outros homens conseguiam fazer. Lembrei-me disso porque tinha tudo a ver com a graça de um jogo qualquer.

Não estou recebendo nada para fazer propaganda do livro de Neil Strauss. Cara, não estou recebendo nem para fazer anúncio do MEU livro, no fim do post!

Suponho, então, que não basta algo ser desafiador para quem joga. É preciso que seja desafiador para quem vê. Por isso, talvez, que o Daredevil e sua capacidade de criar mapas dos arredores ouvindo o som da chuva tamborilando pela paisagem é um cara ferradão enquanto que um cego real que consegue cruzar São Paulo inteira na hora do rush com sua bengala e sua coragem é só… um cego sem amor à vida. Por mais que o que ele faça seja fora da capacidade de quase qualquer um, o resultado final em si não impressiona. Deve ser por isso que um bilionário que já nasceu assim ainda tem uma dianteira no aspecto social sobre um milionário que nasceu na miséria e conquistou tudo o que possui. Sei lá.

Eu tive um amigo cego na faculdade, e depois de passar quatro anos ajudando-o ficara claro para mim quantos obstáculos ele tinha que superar diariamente, e quanto eu estaria ferrado se tivesse que fazer o mesmo. Mas para quem vê de longe realmente só o que dá para falar é um “é, ele é bem esforçado” sem muito entusiasmo.

Deve ser por isso que super-heróis são tão atraentes, e personagens normais são legais na medida em que fazem coisas acima da capacidade das outras pessoas. Já deficientes, por mais que façam coisas que desafiam todos os limites, não impressionam a menos que, mesmo assim, façam coisas que outras pessoas não possam.

Eu queria ver só se, em vez de quebrar recordes paraolímpicos, os deficientes começassem a quebrar recordes olímpicos, se o mundo todo não começaria a olhar para eles de outra forma. O senão disso tudo é o que vimos já nesta Olimpíada que passou: um homem com próteses no lugar de pernas correndo com os outros. Isso é maravilhoso, mas provocou a lógica questão “e se as próteses lhe derem elasticidade ou passadas acima das possíveis pelo corpo humano?”. No caso elas não davam, e testes indicaram isso, mas eu fico imaginando: o que teria acontecido se ele tivesse ganhado? Como será que ele se sentiria?

"Me pagaro..."

Hm… Pior é pensar que, de certo modo, já ouvimos muitos papos de “superatletas” que usavam anabolizantes, mulheres injetando testosterona e por ai vai. E o futuro parece cada vez mais indicar na direção de que é preciso de algo um pouco mais do que “apenas naturalmente humano” para nos impressionar. Não duvido que ainda chegará o dia em que será criada uma liga à parte, onde pessoas poderão usar super-próteses, anabolizantes (que não ferrem muito a saúde) e tal. É tudo por um jogo mais emocionante em alguns poucos esportes, claro. E ai quero ver as Olimpíadas convencionais perderem parte do brilho perante feitos muito mais impressionantes…

Em todo caso, acho que ficou um pouco mais claro para mim o que se procura em jogos: desafios somados à habilidade de se fazer algo acima ou diferente do normal. Será que isso ainda vai ocorrer? A única certeza é que, se isso ocorrer, estaremos legalizando para todos as mudanças corporais, e ai será um Deus nos acuda para instalarmos chips, botarmos músculos sintéticos e tal para sermos aceitos e… Ta bom, duvido que isso acontecerá desse modo. Pelo menos em breve. Quantos terão acesso a transformações e cirurgias assim?

Se bem que, com o tempo, não duvido. Ficção pra caramba, mas se hoje já vemos gente que é melhor aceita depois de um monte de cirurgias de beleza, nada impede que essa tendência se torne cada dia mais opressiva. É a regra do jogo, oras. Você bate um score e precisa arranjar meios para quebrá-lo de novo. Sempre mais e mais. Parece… legal?

"Viciante" seria mais a palavra

Talvez… mas isso não me convence que jogos como as Paraolimpíadas mereçam a obscuridade que tem. É um conjunto de jogos demais, pô! Quem curte games verá o grau de challenges que existem ali, certeza. E ai, você tem alguma opinião sobre a razão da obscuridade desse evento? Tirando, claro, o óbvio preconceito que se tem? Acha que isso tem chances de mudar para melhor… ou vai piorar?

 

*Só para desencargo de consciência: em breve eu estarei lançando, semanalmente, capítulos de um livro que escrevi, chamado Contos de Ulthima – Iluminada Pelas Sombras, no blog da série (contosdeulthima.com). Ainda preciso dar um jeito na aparência do blog, mas enfim, eu começarei a publicá-lo no dia 6 de setembro. Trata-se de uma obra de fantasia medieval e ficção científica com foco em descrições de combates e traumas psicológicos (atenção: contém violência, momentos de linguagem obscena, temas sexuais e assuntos não indicados para menores de 14 anos). Quem quiser conhecer e puder dar uma força camarada de ajudar na divulgação se gostar, é só acessar o site e/ou acompanhar a página da série de livros pelo Facebook para ser informado sobre o lançamento dos capítulos. Eles serão disponibilizados gratuitamente toda quinta-feira, e no fim a obra estará colocada na íntegra para leitura no computador. Pronto, já fiz minha propaganda, estou feliz, agora vou-me embora para Passárgada.

PS: Lá sou amigo do rei.

Rafael P Moreno

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7 Comentario(s)

  • "Rosas sao vermelhas, violetas sao vermelhas, tudo é vermelho nessa porra" ahuahuahuhua. Hysteria é um bloco foda d+, pena que não tem tantos acessos. Ah, escreve sua descrição ai Rafa rs. Valeu o post

    • podes crer, os colaboradores te mq escrever o perfil e botar fotinho XD
      eu to devendo o perfil da equipe nova no post de equipe =)

    • GabrielVRosa 4 anos atrs

      eu também ri demais com essa foto XD

  • Francisco 4 anos atrs

    Há um bom tempo que recordes são questionados.
    Houve um tempo em que "ser superior" era ser melhor em tudo. Qualquer coisa.
    Até hoje os USA só contam seus louros. Qualquer coisa que outros tenham feito, não importa, eles fazem melhor.
    As paraolimpíadas servem para mostrar que se você luta, você consegue.
    Nisto está incluso, inclusive, o seu livro.
    Parabéns!

  • Yuyu Hakusho lida muito bem com essa ideia que falou dos poderes.
    A personagem chamada "Medic" inclusive tem esse poder de controlar todos os processos corporais, por isso, além de poder desligar um ou outro processo pra priorizar o que ele quer, ele consegue também puxar os músculos certos pra dar um soco mais forte, desativar a sensação de dor pra não parar com uma porrada e depois movimentar todo o sangue de forma correta pra evitar ematomas, infecções e essas coisas.

  • Meu pensamento é igual a do Francisco, Parabéns pelo artigo.

  • A penúltima foto esta bem engraçada. rsrsrs.