Quando você precisava de ajuda em algum game há pouco mais de dez, doze anos atrás, não haviam muitas opções. Você recorria àquele seu amigo mito, que sempre sabia alguma coisinha que não garantia nada mas ajudava, ou discava para a assistência técnica e pedia para os “pilotos” aquela força e enfrentava os preços do telefonema e a tempestade de pensamentos vergonhosos que acometia os que só faziam aquilo em situações desesperadoras, ou comprava uma revista de jogos, um artigo raro e valioso tanto quanto inacessível para os pirralhos e suas granas para merendas de dois reais. Invariavelmente você acabava criando um laço de confiança com essas fontes. Você precisa, eles ajudam.

Quando a internet foi se popularizando, surgiram muitos fóruns e locais onde você conhecia novas pessoas e ajudava tanto quanto era ajudado. Você, se fosse um freqüentador, acabava conhecendo os outros membros ponta-firmes, e acabava criando boas amizades com moderadores, administradores e usuários.  Você de fato os conhecia, sabia a quem recorrer para um jogo de RPG ou outro de corrida. Você sabia com quem estava lidando, pelo menos até certo ponto.

Verdade seja dita: era uma desgraça. Quem passou por essa fase deve se lembrar como era complicado garimpar informações ou ter que solicitar socorro, já que os códigos e coisas assim dificilmente estavam disponibilizados antes de você pedir. Para usar um exemplo, o GameFaqs, hoje, possui uma comunidade extremamente pró-ativa e que muitas vezes não espera perguntas para dar respostas, especialmente para jogos aguardados, mas isso foi uma grande evolução. Não há muito o que se preferir do modo como as informações eram disponibilizadas antigamente em comparação a hoje quando falamos em facilidade. É interessante ver o quanto evoluímos de um estágio de explicações “sob demanda” para outro em que muitas vezes vemos coisas que nem queríamos saber, mas que acabamos fazendo-o porque… bem, está ali. Tão fácil…

Mas, recentemente, comecei a jogar Caesar IV (2006), sucessor do meu querido Caesar III (oh, jura?!), e voltei à febre dos jogos de estratégia. Dele passei para Pharaoh Gold, de 2001, e daí em diante fui retrocendendo, em uma viagem, no tempo do gênero e das ideias fantásticas que o permeiam. Chegou uma hora que eu não tinha mais muitas fontes de informações sobre os mesmos. Claro, tinha sempre o GameFaqs, mas a verdade é que alguns dos melhores guias para jogos como Caesar (1993) ou Annals of Rome (1986) se encontram soterrados sob muitas camadas de poeira virtual. Tirando por alguns fóruns, eu não teria dica alguma!

Você sabe o que não é ter dica alguma em um jogo antigo de estratégia? É imperdoável! É masoquismo! É uma das experiências mais másculas da vida! Ta bom, talvez não tanto… Mas é digno de um espartano. O negócio é cruel, muito ao contrário de hoje em dia. Jogue e veja, se não conhece. É de arrancar sorrisos e cabelos.

Se você triunfa em Annals of Rome, você triunfa em qualquer lugar

E o legal é ver o modo como as pessoas se ajudavam,  contavam truques umas às outras e se conheciam. Eu me senti em casa em alguns campos de escavação de mensagens arcaicas. Eram bons tempos difíceis aqueles. Eu não sou tão velho assim, peguei a internet em 1996, e consequentemente os últimos anos dessa fase. Foi de dar água na boca recordar como descobrir as dicas e fazer amizades era também parte da diversão. Isso quando você não tinha que ficar com o dicionário do lado, para ajudá-lo a traduzir o que a tela cheia de estática do monitor caixote tinha a dizer, uma vez que quase tudo era em inglês.

Isso também fazia parte da diversão, era parte do esforço para se dar bem nos jogos. Era um tipo de meta-game. Eu me lembro de passar dias na escola com um caderno, desenhando formas de posicionais minhas casas, reservatórios, balneários, prefeituras e afins nos mapas de jogos a fim de conseguir passar de fase, só para topar com uma ainda mais cabeluda. Os jogos de fato testavam nossa perícia e nossa paciência de um modo que não deviam permitir que civis tivessem que passar por isso. Era coisa para generais, quase, dispor as construções, mobilizar tropas, cuidar da economia, da saúde, do entretenimento e de outros aspectos da vida pública e, de quebra, ter que desenvolver uma rede de contatos reais que pudessem lhe ajudar. Não era melhor que hoje, era pior. Mas não deixava de ser divertido.

Digo isso tudo porque, em época de eleição, vemos muitos políticos simplesmente sem promessas, e outros que prometem fazer em quatro anos apenas um minúsculo punhado de coisas. Ora, isso é ultrajante! Imagine só passar quatro anos em Champion of the Raj (1991) meramente evitando ou travando um combatezinho aqui e ali e nada mais? O negócio aqui bem que poderia, como nos jogos, ser definido por metas: 60% da população educada até o final de 2016, um nível de prosperidade do tesouro da cidade na faixa de 30% (formação de capital entre exportação e importação deve ser superavitária em mais de 30%), 100% das casas com acesso a saneamento básico e saúde e uma Pirâmide média construída!

Sinceramente, esses caras no governo são, em sua maioria, muito noobs. Eu duvido que um cara das antigas, que jogasse e detonasse todos esses games de estratégia, não faria sozinho muito mais do que três Câmaras de Vereadores em termos de infra-estrutura se não quisesse. E poderia deixar essas coisas irrelevantes, como leis de Cidade Limpa e tal, para os outros frescurentos. Pô, nós vemos gente que não faz a menor ideia de para que serve um vereador se candidatando! Não é nada irreal supor que um gamer de SimCity (1989) ou Cohort II (1993) não poderia dar um belo tapa em um monte de problemas da rede urbana, que vão desde mobilidade urbana até segurança.

Sabe o que eu mais acho que falta na política atual? Vontade. Pelo menos no sentido de ver uma cidade, um povo, crescer.  Sabe aquela ideia romântica que temos do Império e da República Romana, de pessoas vindas da plebe que se tornam senadores e fazem o que for preciso para ganhar prestígio enquanto expandem a nação? Então… não dá para dizer que era exatamente assim, e nem que fossem tempos bons (afinal, os caras não tinham nem videogame!), mas eu não duvido que aquele sentimento de pertencimento, de fazer parte de um país pelo qual valia à pena se esforçar e ver avançar, era real. Isso nós víamos, até pouco tempo atrás, nos EUA, por exemplo.

Só que aqui no Brasil, tratamos as coisas como se nada tivesse jeito, tudo só tivesse “jeitinho”. Não é possível que não haja, para um país rico, fértil e vasto como o nosso, solução, e um lugar mediocremente pequenino, montanhoso e tosco como as ilhas que formam o Japão tenham sido palco para um povo tão desenvolvido. E tempo de história não é desculpa, porque o Egito não é hoje nenhuma superpotência e, novamente, os EUA só possuem oito anos a mais que nós e chegaram onde chegaram (com algumas atitudes discutíveis, claro). Para mim temos muito mais do que muitos outros países. O que não temos é vontade – como povo ou como governo, não saberia dizer qual viria primeiro, se é que algum viria, para puxar o outro. Pensando friamente, é quase como se estivéssemos onde estamos por milagre, exportando mais matérias-primas que outra coisa e dependendo tanto de tecnologias que não produzimos.

Eu cheguei a citar que o Japão tem terremotos? Só pra constar…

Se isso parece estar mudando, eu até diria que sim, mas pode ser apenas otimismo meu. Eu nunca vi nenhuma cidade de jogo de nível alto e fim de campanha – que seria, extrema e absolutamente mal e porcamente, equiparável ao que deve ser governar uma nação – florescer com taxas proibitivas, desigualdades alarmantes, cultura precária, exportações de matérias-primas equiparáveis ou acima das de produtos de alto valor agregado, criminalidade rampante tanto no nível da rua quanto em esferas elevadas… e a população ainda por cima ficar pacata. A gente tinha que levar as coisas menos na boa, talvez.

Cara, eu acho realmente que jogos de estratégia não fazem um bom trabalho simulando a realidade, porque em nenhum jogo seria possível reproduzir o que acontece aqui no Brasil sem provocar tumultos, emigração, a ira dos deuses, sei lá. Ou então o Brasil é uma terra ainda mais fictícia do que as apresentadas em simuladores… Porque mais mal projetada, com certeza é, ou não precisaríamos da quantidade de leis e impostos que temos.

Agora é pensar como fazer para formar um “Partido dos Jogadores da Nação” (PJN), a fim de tomarmos o poder e darmos um jeito nessa palhaçada. Pô, eu falo sério! (Ou quase…). Se a gente usasse a mesma habilidade que tivemos um dia para nos comunicarmos por fóruns e trocar dicas, e usarmos tal comunidade com o objetivo de zerar e platinar o Brasil, certeza que faríamos um trabalho infinitamente superior ao que (não) vem sendo feito!

Orra, a gente bem que precisava fazer uma coisa dessas, hein? Alguém ai saberia me dizer como formar um partido? – Aliás, partido é uma ova. O negócio seria chamado “Clã dos Jogadores da Nação”. Ou “Guilda”? Qual vocês acham melhor?

Gamers do Brasil, uni-vos!

PS: Só para aproveitar o canal e relembrar, quinta-feira (dia 6 de setembro) é dia do lançamento virtual e na faixa dos primeiros capítulos do meu próximo livro, Contos de Ulthima – Iluminada Pelas Sombras. Quem gostar de ação, exploração, aventura, magia, comédia nas piores horas possíveis, referências a jogos eletrônicos e de RPGs e uma temática medieval fantástica, e for de preferência maior de 14 anos, não deixe de conferir na quinta-feira: http://contosdeulthima.com/

Rafael P Moreno

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4 Comentario(s)

  • Maas, então… O problema da política não é que não tem ninguém bom, o problema é que na situação atual você não pode ser bom.

    O que quero dizer é que se o cara é um sujeito honesto e comprometido e acabar sendo eleito, ele vai chegar lá e não vai conseguir fazer nada de bom porque se o fizer, vai ferrar com muita gente que vai ferrar com ele. Por isso que sempre quando vemos um cara bom chegar lá, ou ele é corrompido ou larga dessa vida… ou sofre um acidente.

    A minha teoria é de que pra dar certo, tem que chegar galera comendo quieto e tomando aos poucos, um vereador aqui, um deputado alí, um senador lá, não querer dar uma de heroi já de cara, não se corromper e nem se "acidentar" e daí então, quando tiver uma galerinha mais ou menos, dá pra começar a fazer alguma coisa.

    Em termos gamers, não adianta ter uma Guilda toda de gente querendo ajudar se só tá você na Raid.

  • rafael taira 4 anos atrs

    nossa curti pra caramba o texto. Achei bem profundo. Lembro um pouco dessa epoca. Apesar q pra mim ela se estendeu até 2001 e depois teve um renascimento breve na epoca de orkut/yahoo grupos com as comunidades. Peguei isso na epoca desse renascimento que teve na epoca do orkut e yahoo grupos e percebi como a coisa era grande. Esses jogos de estratégia realmente é muito interessante um dos meu generos favoritos. Troquei muita idéia por internet e verbalmente em como conseguir baixar séries nessa epoca,mas de jogos peguei poucas coisas só um codigo de gameshark ou algo parecido. Hoje um site que tenta fazer isso,mas fraco é o game vicio. Tinha no periodo de 2002 a 2009 o Portal dos games,mas ai o site foi desativado e a comunidade no orkut q restou dele é dificil achar algo.

    Tbm acho que o problema do Brasil é a Burocracia. Pra se fazer uma coisa nova ou consertar algo ruim vc gasta muito tempo só com papelada e pouco com prática.

  • safomatetor 4 anos atrs

    Cara, esse é o texto mais bizarro louco que li em uma semana, foi uma odisseia louca de como os jogos de estratégia te influenciaram na sua formação politico-social atual, sinceramente, curti pakas o texto.

    Eu me lembro da minha epoca de escola que eu adorava command and conquer generals, eu tinha um caderno com estratégias militares com cada unidade que tinha no jogo, como fazer um exercito para destruir cada tipo de possível base do inimigo, cara eu era feliz porque era o melhor da minha turma.

    Depois acabei parando no mundo dos MMORPG e fui parar num forum muito massa (hoje não mais) que conheci uma galera muito massa que converso e jogo até hoje (não tibia, obvio)

    outra coisa:
    Sim city é um jogo para se construir utopias.
    Não sei se tu ta acompanhando, mas eu como grande fã da série sim city tenho visto que o novo tem a proposta de realmente ser um simulador de gerenciamento de uma cidade, sendo que a inteligência artificial está num ponto de que a população sempre vai ter algum problema e sempre vai querer mais.

    Agora sobre sua viagem política louca:
    Cara, não tem como comparar o nosso país com o resto do mundo, a gente é a suruba da suruba da suruba cultural no espaço temporal conhecido, aqui tem rico revolucionário, tem pobre também, tem rico capitalista até o ultimo ano de sua vida, tem gamer, tem gay, puta, garotos assassinos, mãe loucas… cara aqui tem de tudo, vai demorar muito, MAS MUITO tempo para que a nossa sociedade se estabilize culturalmente num ponto em que seremos na maioria um bando de patriotas lutando com braveza para defender a nossa bandeira (se é que isso vai acontecer algum dia)

    Cara, falar que os políticos não tem vontade é muito superficial, eu não sou expert em política, apesar de estar indo para essa área, mas o buraco é mais embaixo, bem mais embaixo de onde você pensou agora. Um exemplo clássico que posso dar é que todos os vereadores, deputados….. estão extremamente atrelados aos seus partidos de uma forma que eles não tem liberdade de escolha, milhares de votações que acontecem são feitas e o que acontece é o mesmo de sempre, o partido decide junto em votar sim ou não por exemplo, ai todo o partido vota a mesma coisa, sem contar nos apoios e etc…
    As leis das cotas nas universidades, apesar de eu ser a favor o que não vem ao caso aposto que essa lei só foi aprovada porque os PTistas e seus seguidores são maioria la, eles vão apoiar a ideia porque sabem que a Dilma não vai vetar e isso vai elevar mais ainda a moral com a classe mais carente do nosso país levando ela e mais um monte de gente dinovo pra Brasília. (não tiro a importância da lei para o país, mas nada é feito atoa entende? ainda mais quando vai prejudicar tanto a classe alta que é maioria nas federais)
    Acho que o país só vai melhorar depois que fizermos outra constituição atualizada e adaptada para as necessidades atuais do país.

    Gamers uni-vos? JOVENS! nós temos que nos unir, abaixo-assinados, memes, compartilhamentos no facebook contra o governo não adiantam de nada, já até tinha pensado em tentar organizar pelo facebook uma manifestação nas principais regiões para exigir uma mudança, mas não deu certo.