Era uma vez uma terra mágica chamada Brasil, onde o líder supremo era um molusco muito carismático com um dedo ou tentáculo a menos, onde havia tanto dinheiro que as pessoas não se importavam que centenas de milhões fossem desviados para contas privadas e onde homens eram homens, meninos eram meninos, macacos eram macacos e viados ainda não eram oficialmente homossexuais, eram apenas viados – e sofriam ainda mais preconceitos que hoje em dia, acredite se quiser. 2006 ia embora e a minha emoção crescia com a chegada do Wii. E quem um dia iria dizer que existe a possibilidade de eu jogar com controles com movimento! Oh joy!

Acreditem quando digo que não me importei muito com a mudança do codinome Revolution para algo que uma criancinha poderia muito bem dizer ao descer por um escorregador em um parquinho antes de se esfolar na areia no final, ou com o que diziam sobre o potencial gráfico e de processamento do Wii. Ele parecia revolucionário o bastante para mim, e as promessas de brandir uma Master Sword com o Wii Remote eram o bastante para me manter pilhado. Só houve uma coisa, na verdade, que me frustrou, para ser honesto: a quantidade de games casuais.

Inicialmente eu não via isso com bons olhos. Eu não achava que isso era preconceito, era apenas que ver qualquer alma na rua discutindo sobre como havia comprado um Wii para sua filha e já havia visto Wii Sports me deixava um pouco… fora de mim. Afinal, convenhamos: Wii Sports não chega nem perto de ser o melhor jogo do console. É um de seus ícones, mas não figura entre os melhores, tal como Super Mario World e o SNES.

Do jeitinho que eu me lembro que o jogo era

Hoje, no fim da vida útil do Wii, eu penso diferente, claro. A Nintendo seguramente me frustrou alguns pares de vezes nesta geração, mas no fim acho que ela teve uma sacada genial, que foi expandir seu público-alvo. Basta ver que, ao contrário da Microsoft e da Sony, a Nintendo não tem uma infinidade de outras linhas de produtos para se garantir, e brigar apenas pelo mesmo nicho “hardcore” seria uma estratégia arriscada, para dizer o mínimo. Além do mais, ficou claro, com Facebook, Androids, iPhones e essas coisas do capeta que jogos não precisam – e não devem – ser algo para um público tão seleto. É quase que inevitável que, quanto mais as pessoas tenham acesso às tecnologias eletrônicas, mais invadam o mercado do entretenimento eletrônico também, claro.

De certo modo, me senti como um cinéfilo do começo do século XX, que ia a matinês chiques, e de repente começa a ver proletariados e outros fuleiros em seus ternos mal-caídos superlotando as sessões. Foi daí que o cinema realmente explodiu. E o que falar dos primeiros aviadores, gente riquíssima? O que eles pensariam ao ver tanta gente comprando pacotes CVC do tipo “Salvador sete dias fora de temporada, passagem de ida R$ 99,00 e a de volta custa R$ 1,00”?

Essa “popularização” (“disseminação” talvez fosse uma palavra melhor) já vem ocorrendo há alguns tempos, mas por algum motivo o Wii sofreu fortes críticas – até mesmo minhas, antigamente – por abrir as portas para o público casual. Claro que No More Heroes 1 e 2, The Conduit, Disaster: Day of Crisis, Mad World, Xenoblade: Chronicles, The Godfather, Trauma Center e tal estão ai para mostrar que o público “hardcore” não foi tão esquecido assim quanto quer fazer parecer, ainda que se comparado aos outros consoles esse seja relativamente  o caso. Mas o Wii foi, antes de mais nada, um console que mostrou o quanto estávamos sendo hipócritas em não ver o potencial de consumo dos jogos atuais.

Billy Coen estrelando Disaster: Day of Crisis. Só que não. Mas o protagonista é estiloso mesmo assim

Lei da oferta e da procura, afinal. O Wii pode não ser o mais querido entre a maioria dos jogadores hardcore, mas não dá para negar que foi um sucesso de vendas e, mais ainda, que enfrentou e quebrou paradigmas e preconceitos. Por exemplo: até então, videogame era coisa de muleque sedentário e causava todo tipo de problemas de saúde física e mental, de tendinite e reclusão social a psicopatia e possessão demoníaca. E agora vemos a Wii Balance Board sendo usada para tratar pacientes em clínicas de fisioterapia, e algumas famílias jogando-o – coisa que na época do Atari, SNES, Nintendo 64, Playstation 2 era impensável. Se você era minimamente normal, às vezes se sentia até envergonhado quando sua avó entrava no quarto ou passava pela sala e lhe via jogando Mortal Kombat. Por trás dos seus oculozinhos e da sua face bonitinha você via uma lágrima fantasma correr e as palavras “meu netinho é um problemático assassino doentio que nunca vai arranjar uma namorada…” transpassando por sua face bondosa e sua fronte coberta de fios grisalhos bonitinhos. Dependendo do jogo e de onde fosse, você era um pederasta! Seu sujo! Seu traiçoeiro, que apunhala todo o amor que te deram para jogar coisas infernais como Doom, GTA ou Carmargeddon! Seu bandido, sombra à margem da sociedade, assassino de velhinhas, verme do exército das trevas! Jogando Diablo então, hein? Bonito, né? Que Dante Alighieri pise na sua cabeça quando passar pelo lago congelado no nono círculo! Jogue videogame e abandone todas as suas esperanças…

…Ta bom, nem sempre se chegava a esses extremos, mas eles também não deixavam de acontecer nem por isso. Quase todo jogador das antigas tem pelo menos uma história nessas linhas. E nesse ponto o Wii e os aparelhos móveis fizeram muito por aproximar as pessoas dos consoles.

E…?

Mas o que há de bom nisso? Afinal, agora as mães de muitas pessoas também estão presas no maior complexo carcerário do mundo, o Facebook, e estão quebrando nossos recordes em Fruit Ninjas e Angry Birds da vida, e o seu pai, na escalada das drogas, percebeu que te dar um couro no Wii Play já não bastava mais, zerou Super Mario Galaxy, pegou aquele seu Scarface empoeirando porque foi um filme que marcou época para ele, invadiu outros horizontes e consoles e hoje o seu score online em seu Halo Reach depende dele, e não das suas patéticas técnicas de Recruta Zero. Valeu à pena?

Faça um favor para seus parentes que mantém você na leaderboard: da próxima vez, não dê para o seu Space Marine virilzão a chance de figurar entre os tops como “Leia Organa”, pelamor…

Eu não diria que tenha valido à pena per se, mas é importante ressaltar que, para muitas famílias, esse é um contato inicial que se expande para outros meios do entretenimento eletrônico e além. Muitos que outrora ojerizavam tecnologias já há um bom tempo pagam as contas do banco por computador, perderam o medo de comprar pela internet, aboliram o bom e velho guia de porta-luvas (ou quase) em prol de um GPS e dos mapas do Google Maps (que, apesar de tudo, ainda insistem em imprimir), compraram mobiles smartphones 3G com Bluetooth e touchscreen led 3D com body reader sensors of whatever e outras coisas que antes nem sabiam pronunciar e assim por diante. A tecnologia vem permeando nossas vidas, e os games são apenas um próximo passo.

Um que pode nos aproximar ainda mais de outras tecnologias de vanguarda, e cujas aplicações atuais ainda são ridículas. Entretenimento apenas? Ora, veja os cinemas: antigamente eles eram uma forma de entretenimento a despeito de muitas vezes apenas mostrarem o que era corriqueiro, até que alguém teve a ideia de fazer um documentário. E os filmes de entretenimento também viraram formas de crítica social. E hoje temos inúmeros canais de televisão dedicados apenas a documentários, que nada mais são que filmes com uma proposta outra que não entreter. No meu entender, iniciativas como a do Games For Change são os primórdios do que ainda está por vir. Estamos em uma época embrionária dos games, onde a maioria deles serve para divertir e pouca coisa mais, onde já são visualmente impressionantes mas possuem propostas muito pobres, assim como os filmes de outrora. Eu imagino que o Games For Change, por exemplo, seja quase como um dos primeiros documentários do cinema. Ainda estou à espera do jogo que será o Tempos Modernos ou O Grande Ditador dos videogames, que traga críticas reais e abra o mundo dos games para as possibilidades que existem além da diversão. Por hora o mais próximo disso é o que? Braid? Sinto muito, mas Braid, apesar de todas as mensagens escondidas, é uma forma de diversão, tanto quanto um Bayonetta. Nos AAA temos o que? Wii Fit, que possui uma proposta de enriquecer a saúde ou coisa que o valha, Brain Age talvez… e nos demais meios temos alguns jogos de edutainment, quase todos ainda chatos e capengas. Onde Está Carmen Sandiego até que era divertido e também muito mais educativo que a maior parte dos que vemos por ai.

Está bem, eu estou sendo injusto com alguns pouquíssimos jogos. E, claro, você pode aprender muitas coisas em games bem feitos e tal, mesmo que não criados para ensinar nada. É assim que funcionam as lendas e histórias clássicas e Othelo e blablabla. Eu sei que dá para se aprender bmuitas coisas, por exemplo, com games da série Shin Megami Tensei. Nada útil, provavelmente, mas muitas coisas mesmo assim.

Estou nem ai para o fato de que Catherine não faz parte da série Shin Megami Tensei. É tudo da Atlus, quase do mesmo time de produção e quem jogou entenderá a comparação. E dá para aprender muita coisa aqui também! Erm…

È de se esperar que, com públicos tão diversos tendo acesso aos jogos, não tarde para que jogos passem a servir outros propósitos que não apenas divertir, assim como o Discovery Channel serve a propósitos muito diferentes dos da HBO, TNT e tal, mesmo tudo sendo, em tese, filmes – ou ramificações desses.

As vezes eu acho que pareço teimar que games precisem ser úteis, não é? Não é que eu ache que precisem, é que a história dos media mostra que é assim que funciona. A evolução dos livros de história é as enciclopédias e, destas, os jornais, e a evolução das revistas de notícias e folhetins são as de entretenimentos e nichos diversos, em um ciclo construtivo. As rádios tinham radionovelas, que sumiram, e as televisões tinham telejornais, que tiveram suas grades reduzidas em nome de filmes repetidos da Sessão da Tarde e telenovelas (irônica a vida…). Filmes eram precedidos por resumos das notícias da semana, que foram abolidos, e hoje as pessoas retornam aos cinemas para assistir futebol. O teatro, então, ninguém sabe se é uma ferramenta de entretenimento ou de crítica social, apenas que quase todo mundo que passa por ele parece não bater bem da cabeça – é uma arte extremamente politizada e de grande poder de fazer refletir. E os mainframes usados na guerra fria para zelar pela segurança do mundo foram usados para se fazer joguinhos, e o sistema de defesa revolucionário dos EUA deu origem à internet que hoje milhões e milhões de pessoas usam para postar fotinhos toscas e lançar indiretas do tipo “só quando algumas pessoas vão embora das nossas vidas é que percebemos que podiam ter ido antes”. Irônica, muito irônica essa tal de vida…

E o que vai, volta. Temos hoje a ideia de que games possuem como maior razão de ser o ato de divertir, mas eles, por si sós, já saíram das mentes de cientistas militares, alguns dos quais pais da bomba atômica, e interessados em proteger países, não em ver que o “DarkKinigitiLukinhasUchihaAzaraTotal” platinou 6.846.437.372 games e está ainda assim em sétimo lugar na droga do ranking geral. Eles nasceram de um desvio de propósito, e eu não duvido que outros desvios se concretizem em breve, com a expansão do número de pessoas e da crescente distinção de interesses entre elas. Que novos jogos, mais jogos, melhores jogos feitos para educar, tratar de doenças, promover marcas, criticar modelos sociais, ensinar pilotos a comandar veículos, ajudar prisioneiros a se readaptarem, pessoas com traumas a superarem-nos e tal venham para se assomar aos games de entretenimento. E talvez formem categorias à parte, assim como filmes e documentários, livros e revistas, jornalismo e futebolismo… (oh, como eu adoro criticar o jornalismo “esportivo” padrão, que de esportivo nada tem já que quase sempre só fala de um único esporte, e nem mesmo de todas as facetas dele.)

Cara, se até os sanitários poderão gerar energia e ajudar a pagar nossas contas no futuro, o que não dizer dos games e seu potencial de… fazer coisas! Sei lá… (Se você não acompanha, eu recomendo muito o site Inovação Tecnológica. Veja esta matéria, por exemplo: http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=sanitarios-ecologicos-autossuficientes-nao-geram-esgoto&id=010125120822. E depois, claro, leia as matérias mais interessantes, sobre o espaço, laseres, física quântica e tal. Prato cheio!… E, não, eu não estou recebendo nada para fazer propaganda. Nem sei se eles pagam para fazer propagandas. O negócio é científico e underground for the win, meu).

Desde que comecei a pensar nisso, o Wii me pareceu menos uma campanha desnorteada (ou com norte equivocado) e mais um tiro em direção ao inevitável futuro, ainda que um tiro curto e talvez um pouco precipitado. Por outro lado, quando é o “tempo certo” para se fazer uma coisa, senão a hora em que você realmente pode fazê-la, não?

Filosofias à parte, o Wii lhe deixará saudades? Você acha que o futuro dos games será mais plural de formas e objetivos do que hoje, ou torce que não? Para você, que usos os games poderiam ter que não tem hoje, ou que ainda é muito incipiente?

Rafael P Moreno

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4 Comentario(s)

  • So much letters D=

  • Bom, texto lido. Desculpa, não me importo tanto assim com o presente do Wii. Ele criou tecnologias novas e tal, vai ser lembrado como um marco, mas outros devem vir e trazer tecnologias e paradigmas novos, ou estaremos estagnados. Afinal, como você falou, Wii foi um primeiro passo, mas eu acho que ele vai ser sempre lembrado como ferramenta de entretenimento, então um novo deve chegar já com proposta de não ser.

    O que me interessa mais nessa conversa é a questão de o que mais um jogo pode ser além de entretenimento.
    Eu quebro a cabeça tentando achar alternativas pra isso, mas pensa só: um filme é sempre entretenimento, deixe você feliz ou não, debata algo ou não, ele te entretê.
    Então, um jogo educativo ou um jogo que critique a sociedade continua sendo um entretenimento. Pensando bem, no fim das contas, um jogo sem entretenimento vira uma enciclopédia interativa ou um software.

    O que não consigo aceitar é que ainda não criamos uma forma de trazer as notícias pros games. Afinal, o jornal te entretê, mas te passa uma notícia baseada (virtualmente) em fatos reais e você assiste a dita notícia (virtualmente) real.
    Agora, "jogar" a notícia ainda não me cai. Se eu jogar, não estarei mudando o evento? Deixa de ser realidade pra virar ficção, não é? Como eu vou informar de verdade nesse ambiente afinal?

    No final das contas, acho que ainda não acontece porque ninguém pegou a sacada de o que tem de ser feito pra você "jogar notícias". Deve ser algum macete bem simples e babaca, mas alguém ainda tem que sacar o que é….

  • LesmaPsicotica 4 anos atrs

    Muito bom o texto, parabéns!

    Só discordo quando você separou o "documentário" do "entreter". Na minha opinião, eu acho que os documentários e filmes críticos, ao mesmo tempo em que ensinam, entretêm a pessoa que o vê, se não geraria interesse no assunto do documentário ou matéria. Por isso eu acho que jogos como o Braid podem sim entrar nessa categoria de "jogos alem de diversão", pois, mesmo que o foco dele seja na diversão, ele tem essa critica por traz. (coisa que muitos outros jogos não fazem)
    Outro exemplo de jogo desses que eu tenho é o "Spec Ops: The Line". Mesmo sendo um shooter em terceira pessoa, ele carrega varias criticas a guerra e as nossas noções de "bom" ou "mal".

    Por fim, gostaria de dizer que os texto do Hysteria são ótimos. Aqui fica o meu agradecimento por sempre trazer uma boa leitura :D

    ( Cara, essa imagem do Mario é muito, boa. hahaha XD )

  • rafael taira 4 anos atrs

    cara muito foda esse coluna. Texto bem profundo. Me fez pensar em diversas coisas além de games.