Fato: Videogame é um hobbie caro. É console, é jogo, é upgrade de placa de vídeo… Porém, é a indústria do entretenimento que mais cresce, com as maiores arrecadações, batendo recorde sobre recorde (World of Warcraft e Call of Duty que o digam). O que a maioria dos gamers não sabem é o quanto é caro produzir um jogo. Se as grandes desenvolvedoras já fazem de tudo para lucar o máximo possível com a venda do jogo (seja com jogos produzidos anualmente, com DLCs de roupas, fases extras ou online pass), como os pequenos podem sobreviver?

Imagine o seguinte cenário: você é O programador, praticamente um Tommy Refenes. E então você quer criar um jogo de plataforma, um dos estilos mais clássicos que existem. Além de toda a programação (controle de pontos, vidas, colisões, gravidade…) existem trocentos outros fatores de jogo. Alguém precisa saber desenhar, animar e dar vida a tudo que você programar. Outra pessoa precisa cuidar da sonorização (música de fundo, efeitos sonoros de pulo, dano, morte). Um game designer também é desejável, pois você quer que o seu jogo tenha um diferencial sobre todos os outros que estão no mercado. Por fim, um carinha no financeiro/marketing, controlando gastos e investindo em propagandas para que o jogo seja conhecido e alcance sucesso comercial. Isso sem contar os beta-testers, gasto com aquisição de computadores, licenças de software/engine, conta de luz, água e o mais importante: café/coca-cola. E vamos encarar a realidade: a dupla Tommy Refenes e Edmund McMillen ralou muito para conseguir entregar o ótimo Super Meat Boy – um simples jogo de plataforma, vendido a R$ 24,99 no Steam. Quantos desses são necessários para PAGAR a produção de SMB?

Super Meat Boy - Um 'simples' jogo de plataforma

Super Meat Boy – Um ‘simples’ jogo de plataforma

E é essa a maior barreira que muitos estúdios – e desenvolvedores! – enfrentam na hora de lançar um jogo atualmente. Exemplos podem ser vistos no excelente documentário Indie Game: The Movie , onde podemos ver os perrengues que três equipes encararam para lançar os seus jogos. Só a ideia não é suficiente – você sempre precisa do dinheiro. E como consegui-lo?

Algumas soluções clássicas – e por que não dizer, mais arriscadas – sempre estiveram a disposição de desenvolvedores. Empréstimos familiares (ou bancários), cartões de créditos, venda de bens preciosos, investir do próprio bolso, hipotecar a sua casa – todas são opções mais ortodoxas. E o principal problema: se o seu jogo não for um sucesso, a chance de você sair endividado é enorme. E há pouco mais de um ano Tim Schafer surgiu com uma nova estratégia de captação de recursos: o crowfunding.

Fundado em 2009, o kickstarter é um site focado em captar recursos para financiar projetos que estão em alguma etapa do seu desenvolvimento. O criador do projeto estabelece uma meta e só vai ‘ver’ a cor do dinheiro caso essa meta seja atingida; em troca ele oferece recompensas para que os usuários do site possam contribuir financeiramente com a sua obra. No dia 8 de fevereiro de 2012 Tim Schafer (Full Throttle, Grim Fandango, Brutal Legends) anunciou a criação de um novo adventure, a ser financiado pelo público através do Kickstarter: a meta de quatrocentos mil dólares foi obtida em menos de oito horas. O montante arrecadado foi assustador: mais de três milhões e trezentos mil dólares.

Muitas vezes o desenvolvedor só precisa de dinheiro para finalizar uma parte do jogo, como aconteceu com Faster Than Light: eles precisavam de dez mil dólares para conseguir um Designer de Som. Conseguiram arrecadar mais de duzentos mil – além de uma comoção maior que qualquer publicidade que eles poderiam bancar. Que tal trazer de volta um genêro de jogo praticamente morto? A Inxile conseguiu bancar a produção de Wasteland 2 (sucessor do jogo que deu origem a Fallout) e Torment: Tides of Numenera, enquanto a Obsidian vem com uma nova propriedade intelectual, até agora chamada de Project Infinity. E como esquecer do Lorde British (criador da série Ultima) e o seu tão falado Shroud of the Avatar: Forsaken Virtues?

E o mercador nacional? Longe de possuir o sucesso do irmão americano, o mercado nacional caminha a passos lentos. O primeiro jogo nacional a atingir o público foi ‘A Luz da Escuridão‘ (ou The Light of the Darkness), que conseguiu ser bancado através do próprio kickstarter. Um projeto que eu estou apoiando – e torcendo para que se torne realidade – é o Tormenta: O Desafio dos Deuses . Baseado em um dos meus cenários de RPGs favoritos, o jogo será um Beat’em Up com elementos de RPG, no melhor estilo de Tower of Doom, Shadow over Mystara e Golden Axe. O jogador irá interagir com personagens clássicos de Arton, como o todo poderoso Mestre Arsenal e a desmiolada Niele. Misture isso tudo com o enredo do Leonel Caldela (autor da Trilogia Tormenta e dos ótimos Caçador de Apóstolos e de Deus Máquina) e eu aposto que teremos um jogo sólido, divertido e de explodir cabeças. Ajude a divulgar esse texto, essa ideia e, se puder, não deixe de contribuir!

Bruno Esteves

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9 Comentario(s)

  • Realmente o crowdfunding pode ser uma solução para dar aquele empurrãzinho no desenvolvimento de jogos indies, ou de projetos que fogem do padrão "mercadologicamente viável" atual, como o exemplo do game de Tim Schafer, que tanto sofrem com falta de recursos.
    O "Luz da Escuridão" não me empolgou muito e mesmo com o sucesso da campanha no KS, aparentemente o desenvolvedor continuou tendo problemas e o projeto ficou vários meses sem novidades para os colaboradores. Recentemente ele lançou uma demo Alpha com objetivo de colher o feedback mas ninguém postou nada nos foruns. Acho que a galera desanimou dele. Nem sempre apenas ter a verba resolve.

    Já o game de tormenta, apesar de não ter achado o protótipo que eles mostraram muito empolgante, não resisti a idéia de ver o universo rpgístico em game e já deixei minha humilde contribuição no Catarse, torcendo que seja um sucesso.

    • Pois é, o 'Luz da Escuridão' teve problemas, e o pessoal não deu o feedback pros 'investidores' – um erro crasso pros 'patrocinadores' do projeto…

      Espero muito que o sucesso dos 'RPGs ocidentais old school' tragam esse ramo de volta. Nem que seja só pelos 'sobreviventes' da Black Isle/Obsidian…

  • Ogro Himself 3 anos atrs

    AMO Kickstarter. Já colaborei para KS de 2 games, 1 coleção de miniaturas e 1 board game.

    Um dos games dignos de nota que faltou mencionar foi o Shadowrun Returns, continuação espiritual dos clássicos RPGs de SNES e Mega Drive. Ja tem videos de gameplay, tá foda =D
    http://www.kickstarter.com/projects/doublefine/do
    http://www.kickstarter.com/projects/1613260297/sh
    http://www.kickstarter.com/projects/1513061270/re
    http://www.kickstarter.com/projects/coolminiornot

    • Esqueci completamente do Shadowrun! Apesar de nunca ter jogado a versão do Mega, lembro com muito carinho da versão do SNES. Aliás, misturar 'Cyberpunk' com 'Magia' é uma escolha exótica – mas muito foda!

      O difícil de colaborar com 'peças físicas' é o frete pro Brasil + possibilidade de engordar o bolso da Dilma…

  • Kickstarter é realmente muito legal, mas a coisa pode fugir ao controle.

    O caso do Richard Gerriot é um exemplo. Um cara que tem dinheiro para pagar uma viagem espacial precisa do kickstarter? Especialmente ele que tem renome no meio? O lucro das vendas do jogo não seria o suficiente para cobrir o seu investimento? Ele realmente não conseguiria investidores/parceiros?

    Existem casos meio-termo como Akaneiro: Demon Hunters. Aparentemente eles não precisavam realmente do kickstarter, mas usaram como tática de marketing para gerar buzz para o projeto. Eu particularmente detestei o jogo (e nem sei se o kickstarter foi bem-sucedido) mas reconheço como tática válida para empresas menores que apreciariam a exposição e o dinheiro extra.

    • O KS pode terminar como uma faca de dois gumes. O 'público' é quem escolhe o que vai ou não ser financiado, e pode acabar com alguns problemas, como dar dinheiro a quem não precisa ou financiar um projeto que não sairá do papel. Por isso é tão importante escolher bem quem você deve apoiar…

  • A luz da escuridão parece ser um jogo bem bacana, mas não me lembra um beat´nup, olhando o vídeo parece mais com um castlevania.

  • Kickstarter é realmente muito legal