Existem alguns alguns conceitos que eu considero abomináveis. Dieta (apesar de tentar seguir uma). Apertar botão pra defender em jogos de luta (Alô MK, essa é pra você). Ver um filme do Superman sem a trilha do John Williams. Ver o Homem Aranha, herói da minha infância, matando bandidos. E a trava de região.

Essa ‘trava’ de região começou como uma tentativa de proteger um determinado mercado por seus custos regionais, como o câmbio, impostos, custo de logística e etc. E essa ‘desculpa’ não é exclusiva do nosso hobby favorito: A indústria de filmes e séries também possui essa política de setorização de produtos, criando DVDs e Blu Rays que só podem ser reproduzidos por aparelhos fabricados para certas regiões. Quase que uma ‘censura geográfica’. E é por isso que não são todos os filmes que chegam ao Brasil, ou que muitos jogos não saem no ocidente…

Travas Históricas

Na época dos cartuchos era muito mais fácil proibir o uso de jogos em consoles de regiões diferentes: era só fazer uma modificação ‘física’ no slot de encaixe do cartucho! Embora seja uma alteração ‘cara’, pois você precisaria de 2 linhas de produção diferentes, era simples o suficiente. O ‘nintendinho’ é um exemplo clássico: enquanto o Famicom (‘nintendinho japonês’) funcionava com fitas de 60 pinos, o NES (versão americana do nintendinho) possuía um encaixe para cartuchos de 72 pinos. Então se a Nintendo quisesse que algum jogo não fosse lançado no Ocidente (Alguém disse Super Mario Lost Levels?) era só não produzí-lo com 72 pinos. Essa estratégia, tão simples e funcional, se repetiu na geração 16 bits com o SuperNes, mas de uma forma ainda mais simples: o console americano possui ‘travas’ de plástico no seu interior que impediam que os cartuchos japoneses se encaixassem nele.

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Diferença mais que visível entre os cartuchos de Famicom (amarelo) e NES (cinza)

O problema da proteção física era que a solução para ela era tão simples quanto a trava: bastava que algum entendido de eletrônica desenvolvesse um adaptador que todos os jogos poderiam ser usados no console. No caso do Super nintendo foi ainda mais fácil: era só ‘lixar’ ou ‘arrancar’ os dentes de plástico que impediam que as fitas de Super Famicom funcionassem na versão americana do video-game! Como o procedimento era para se remover ‘travas’, acredito que tenha sido onde o termo ‘destravar’ nasceu…

NTSC? PAL?

As gerações seguintes apostaram em outra tecnologia, mais difícil de ser burlada: adaptar os consoles para trabalharem em sincronia com as Tvs. Os Estados Unidos e grande parte do continente americano funcionam com o sistema NTSC (National Television System Committee); já o Japão usava uma tecnologia semelhante, o NTSC-J. Grande parte da Europa, parte da Ásia e da África trabalhavam com o PAL (Phase Alternating Line), o Brasil com o PAL-M, o trio Argentina/Paraguay/Uruguay utilizava o PAL-N e o restante do mundo transmitia imagens através do SÉCAM (Séquentiel couleur à mémoire). O que mudava nisso tudo basicamente era o ‘código’de cada cor ou a frequência da TV.

Quem tentou rodar um jogo europeu num Ps2 travado, por exemplo, pode até ter conseguido jogar, mas caso a sua TV fosse brasileira e o console americano ou japonês, o máximo que você conseguiu enxergar foi um jogo em Preto e Branco. Um tanto quanto Noir? Pois é. E vale lembrar que, além dessa tecnologia, os consoles também possuíam travas de região configuradas no próprio console, que dificultavam a reprodução de jogos fora de suas regiões originais.

A maioria das Tvs modernas possuem um tipo de ‘filtro’ que trabalham com todos os sinais… e como o sinal pode ser enviado por HDMI (que é universal) esse tipo de trava caiu em desuso, restando somente a trava via firmware – que só pode ser removida com a modificação do console através de chips (o famoso ‘desbloqueio’, que além de permitir que o console rode jogos de outras áreas, permite que ele rode cópias piratas).

E a geração atual, como está? Em uma decisão inédita, a Sony ‘largou’ a trava de região, permitindo que jogos de qualquer região funcionem em todos os video-games – mas isso só vale para os jogos; DVDs e Blu Rays continuam obedecendo a norma internacional. E vocês sabem o Xbox 360, o Nintendo Wii, o Nintendo Wii U e o 3Ds possuem em comum? As malditas travas regionais.

Globalização?

O que mais aborrece os jogadores não é a trava em si, e sim a impossibilidade de jogar algo que não venha para asua região. Os fãs de JRPGs, por exemplo, sofreram por muito tempo a espera de uma versão ocidental de Final Fantasy III, lançado para o Nes e que só veio dar as caras por aqui no remake do 3Ds; antes disso o jogador que não sabe japonês só podia jogar através de patchs de tradução disponíveis na internet.

Um exemplo mais recente é o excelente Demon’s Souls: a versão ‘original’ do jogo, lançado pela fromsoft, era ‘exclusivo’ do mercado asiático. Como o Ps3 não possui travas regionais, o jogo começou a ser importado por tantos jogadores fora da Ásia que acabou chamando a atenção da Atlus, que ‘localizou’ e lançou o jogo no resto do mundo – e o resto da história vocês já conhecem: ele vendeu mais de 1,5 milhões de unidades… não acredito que veríamos Dark Souls se isso não tivesse acontecido.

E nós, consumidores, só podemos torcer para que as próximas gerações sejam livres dessa praga…

Bruno Esteves

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10 Comentario(s)

  • Squallnathan 3 anos atrs

    Pelo andar da carruagem, o Xbox 1 provavelmente vai a maldita trava. No PS4 acredito que a Sony vá continuar do jeito que está já que aboli-la deu certo pro PS3.

    • acredito q nao… a questao do blu-ray deve tirar a trava…

      • Squallnathan 3 anos atrs

        Acho que o Bluray em si não influencia nisso, até porque filmes ainda são divididos em regiões, e mesmo que a maioria seja region free, alguns títulos ainda saem travados. Isso é bem comum na Europa.
        Botar trava de região só seria mais um ponto negativo pro Xbox one, pro PS4 um passo pra trás.

        • imaginei que isso fosse limitado pela midia, se o xbox fizer isso frente ao que o ps3 já faz, mais um ponto negativo para ele pq já está acumulando vários…

  • Quando eu era criança, achava que o famicon e o NES eram consoles diferentes.

  • Squallnathan 3 anos atrs

    É, vai ter trava mesmo http://goo.gl/umzWp

  • safomatetor 3 anos atrs

    As travas de região no Xbox 360 existem sim, mas não são todos os jogos "pal-m" que não funciona no NTSC, e isso quem escolhe é a produtora do game. Por exemplo, se você tem o Fifa 14 europeu (PAL-M) se a EA quiser ela libera para todos os consoles (NTSC e NTSC-J), se ela não quiser, ela só libera pros consoles PAL mesmo, o que eu não entendo é o porque de bloquear.
    http://forum.xbox-sky.cc/xbox360_regional_compati

    Olha o Call of duty por exemplo, somente uma versão do MW que é NTSC-J é bloqueada pras outras regiões, o resto você pode pegar a vontade.

    Na Play-Asia também tem em todo jogo de XBOX a versão e em qual console funciona ou não.

    Eu já indiquei um jogo PAL-M que funcionou num sistema NTSC (Your Shape Fitness Evolved 2012)
    Claro olhando a lista de compatibilidade.

    O que eu não entendo muito bem é o do porque as EMPRESAS, já que elas que escolhem e vai ser do mesmo modo com o XBOX one, porque elas então impediriam da pessoa comprar em qualquer lugar? pelos preços diferenciados? estão querendo forçar o que?

    • Não sabia que eram as distribuidoras que escolhiam sobre as travas de região… fica então mais dificil ainda decidir o pq das travas.

      O dia que eu for CEO de uma publisher eu descubro isso…